segunda-feira, 1 de setembro de 2025

#67 AERÓSTATO

 AERÓSTATO

Depósito: 19/04/1709

Destaque: Uma das primeiras patentes concedidas no Brasil

Inventor: Bartolomeu de Gusmão

Titular: Bartolomeu de Gusmão





Nascido em Santos, São Paulo, Bartolomeu de Gusmão (1685–1724) estudou no seminário jesuíta de Belém, na freguesia de Cachoeira, capitania da Bahia, onde se ordenou padre. Desde cedo revelou interesse pelas ciências naturais, criando no seminário um projeto de máquina capaz de elevar água a cem metros de altura. Em 1701 viajou para Portugal, retornando brevemente ao Brasil, mas voltou a Lisboa em 1708 para cursar Cânones na Universidade de Coimbra, onde também aprofundou seus estudos de Física e Matemática. No ano seguinte, apresentou ao rei D. João V uma petição declarando ter inventado um “instrumento para andar pelo ar da mesma forma que pela terra e pelo mar”. O monarca concedeu-lhe privilégio sobre a invenção em 19 de abril de 1709. O documento contém despacho do rei D. João V, datado de 17 de abril de 1709, fazendo mercê a Bartolomeu de Gusmão da primeira dignidade que vagar nas Colegiadas de Barcelos ou Santarém e do ofício de lente de prima de matemática na Universidade de Coimbra com seiscentos mil reis de renda, para com maior vontade "se aplicar ao novo instrumento". Contém explicação da máquina aerostática e o desenho da mesma. Contém nota sobre esta invenção no verso deste desenho. Apresenta os seguintes dados de impressão: "Lisboa: na Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1774". (PT/TT/MSLIV/1011/000052) 

A partir de então, Gusmão realizou diversas experiências com balões de ar quente, algumas presenciadas pelo próprio rei e pela corte. Em 1713 partiu para a Holanda em busca de aperfeiçoar seus experimentos, retornando a Portugal em 1716. Em 1720 concluiu o curso universitário e foi nomeado membro da recém-criada Academia Real de História. O rei também o nomeou fidalgo-capelão da Casa Real e lhe concedeu rendimentos no Brasil. Coube-lhe ainda a tarefa de redigir, em português, a História do Bispado do Porto. Nos últimos anos de vida, converteu-se ao judaísmo e, perseguido pela Inquisição, fugiu para a Espanha. Morreu em Toledo, em 1724, durante essa fuga. Era irmão de Alexandre de Gusmão, político e diplomata.



Conhecido como o “padre voador”, é considerado um dos precursores da aeronáutica, entre os primeiros a demonstrar a possibilidade de máquinas capazes de voar. Seu projeto previa utilidades práticas como envio de mensagens a longas distâncias, transporte de mercadorias ultramarinas, auxílio a cidades sitiadas, exploração das regiões polares e solução do problema da medição das longitudes. Em 5 de agosto de 1709 fez uma primeira demonstração pública na presença de D. João V, lançando um balão de papel aquecido por fogo, que acabou queimando antes de voar. Uma segunda experiência, nos dias seguintes, obteve êxito: um balão de papel pardo, aquecido por brasas numa tigela de barro, elevou-se cerca de quatro metros na sala dos embaixadores da Casa da Índia, diante do rei, da rainha, do núncio apostólico (futuro Papa Inocêncio XIII), do corpo diplomático e da corte. A experiência impressionou a todos. Em outubro do mesmo ano, outro balão lançado da Casa da Índia atingiu altura ainda maior.

Mais tarde surgiu a lenda de que Gusmão teria voado num aeróstato entre o Castelo de São Jorge e o Terreiro do Paço, mas não há registros que confirmem tal feito. De fato, suas experiências limitaram-se às apresentações perante a corte. Ficou célebre também a gravura da chamada “passarola”, provavelmente uma invenção para distrair críticos e curiosos. Somente décadas depois, no fim do século XVIII, os irmãos Montgolfier aperfeiçoaram os estudos sobre aeróstatos. Em 1783 conseguiram elevar um balão que transportou animais e, meses depois, outro que levou dois homens em um voo sobre Paris.

O padre Gusmão, conhecido também por seus dotes oratórios, foi membro da Academia Real de História e deixou vários sermões, dos quais o mais conhecido é o da festa do Corpo de Deus, realizado em 1721. Inventou ainda outras máquinas e equipamentos: um moinho mais veloz que os existentes então; um sistema de lentes para assar carne ao sol, inspirado, como a própria Passarola, nos ensinamentos de Arquimedes; e maquinaria para exploração racional de tufeiras. Seu aeróstato é conhecido internacionalmente como o primeiro do gênero. Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, Espanha, em 19 de novembro de 1724. Em homenagem ao padre aviador, a Medalha Bartolomeu de Gusmão foi criada pelo Decreto nº 68.886, de 6 de julho de 1971, e destina-se a agraciar militares e funcionários civis do Ministério da Aeronáutica, que tenham se distinguido no exercício de sua profissão. A medalha homenageia o pioneiro da aerostação, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, brasileiro nascido na Vila de Santos em 1685, o qual demonstrou ao Rei de Portugal que um "engenho mais-leve-do-que-o-ar", ou balão, erguer-se-ia aos céus. 



Resumo: Petição do Pe. Bartholomeu de Gusmão. Diz o licenciado Bartholomeu Lourenço, que elle tem descoberto hum instrumento para andar pelo ar da mesma sorte q pela terra, e pelo mas, com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas, e mais legoas de caminho por dia, nos quaes instrumentos se poderão levar os avisos de mais importancia dos exercitos, e terras mais remotas, quasi no mesmo tempo em que se resolvem; no que interessa a Vossa Majestade muito mais q todos os outros Principes, pela maior distancia dos seus Dominios, evitando-se desta sorte os desgovernos das Conquistas, que provem em grande parte de chegar tarde a noticia delles; além do que poderá Vossa Majestade mandar vir todo o preciso dellas muito mais brevemente, e mais seguro; poderão os homens de negocio passar Letras, e cabedaes a todas as Praças sitiadas; poderão ser socorridas tanto de gente como de viveres, e munições, a todo o tempo, e tiram-se della as pessoas q quizerem, sem que o inimigo o possa impedir. 




Descobrir-se-hão as regiões mais vesinhas dos polos do mundo, sendo da Nação Portugueza a gloria deste descobrimento; alem das inffinitas conveniencias q mostrará o tempo; e porque deste invento se podem seguir muitas desordens commettendo-se com o seu uzo muitos crimes, e facilitando-se muitos na confiança de se poderem passar a outro Reino, o q se evita estando reduzido o dito uzo a huma só pessoa a quem se mandem a todo o tempo as ordens convenientes a respeito do dito transporte, e prohibindo-se a todas as mais sobre graves penas; e he bem se remunere ao Supplicante invento de tanta importancia. Pede a Vossa Majestade conceder ao Supplicante o privilegio de q pondo nos abra o dito invento, nenhuma pessoa de qualquer qualidade q for, no possa uzar delle em nenhum tempo neste Reino ou suas Conquistas em licença do Suplicante ou seus herdeiros, sob pena de pendimento de todos os bens e as mais que a Vossa Majestade parecerem. Consultou-se no Dezembargo do Paço a El-Rei com todos os votos e que o premio que pedia era mui limitado e que devia amplicar. Sahio despachado com a resolução seguinte. Como parece a Alteza; e alem das penas accrescento a de morte aos Transgressores; e para com mais vontade o Supplicante se applicar ao novo instrumento, obrando o effeitos q relata, lhe faço mercê da primeira Dignidade que vagas em as minhas Colegiadas de Barcelos, ou Santarem e de Lente deprima de Multhe matiça da minha Universidade de Coimbra com seiscentos mil reis de renda que crio de novo em vida do Supplicante somente. 
Lisboa 17 de Abril de 1709. Com a Rubrica de Sua Majestade.


Referências:
AMEIDA, L. Ferrand de, "Gusmão, Bartolomeu Lourenço de", in SERRÃO, Joel, Dicionário deHistória de Portugal, Porto, Figueirinhas, 1981, vol. III, pp. 184-185.

CARVALHO, História dos Balões, Lisboa, Relógio d'Agua, 1991.

CRUZ   FILHO,   F.  Murillo,   Bartolomeu   Lourenço   de   Gusmão:   Sua   Obra   e   o   Significado Fáustico de Sua Vida, Rio de Janeiro, Biblioteca Reprográfica Xerox, 1985.

CRUZ FILHO, Murilo. Bartolomeu Lourenço de Gusmão, O Aerostato de Bartolomeu de Gusmão - Projeto: Murillo Cruz - 1985 https://bartolomeugusmao.blogspot.com/ 

CRUZ FILHO, Murilo. Bartolomeu de Gusmão - Parte 1 - Murillo Cruz, https://www.youtube.com/watch?v=l3ZWNttTrcA 

SILVA,   Inocencio   da,   ARANHA,   Brito,   Diccionario   Bibliographico   Portuguez,   Lisboa,Imprensa Nacional, T. I, pp. 332-334.

TAUNAY, Affonso d'Escragnolle, Bartolomeu de Gusmão: inventor do aerostato: a vida e a obra do primeiro inventor americano, S. Paulo, Leia, 1942.

TAUNAY, Affonso d'Escragnolle, Bartholomeu de Gusmão e a sua prioridade aerostatica, S.Paulo: Escolas Profissionaes Salesianas, 1935, Sep. do Annuario da Escola Polytechnica daUniv. de São Paulo, 1935.

VISONI, Rodrigo Moura; CANALLE, João Batista Garcia. História da Física e Ciências Afins, Rev. Bras. Ensino Fís. 31 (3)  Set 2009 https://doi.org/10.1590/S1806-11172009000300014 Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o primeiro cientista brasileiro 




Instituto dos Arquivos Nacionais Torre do Tombo (Portugal).
Chancelaria de D. João V-Ofícios e mercês, livro 31, folha 202 e verso.



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