domingo, 14 de setembro de 2025

#112 EMBRAPA PI8500568 CONTROLE BIOLÓGICO DE LAGARTA DE SOJA

PI8500568 PROCESSO DE PRODUÇÃO E PURIFICAÇÃO DO BACULOVIRUS ANTICARSIA PARA O CONTROLE BIOLÓGICO DE LAGARTA DE SOJA, ANTICARSIA GEMMATALIS HUBNER

Depósito: 07/02/1985

Destaque: economia estimada em 13 milhões de reais/ano da safra de soja no país

Inventor: Flávio Moscardi

Titular:  Embrapa (BR/DF)


A invenção descrita na patente PI8500568 trata de um processo biológico para controlar a lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis), uma das principais pragas da cultura no Brasil. Tradicionalmente, esse controle era feito com inseticidas químicos, caros, importados e prejudiciais ao meio ambiente, mas a proposta é usar o Baculovirus anticarsia, um vírus natural específico dessa lagarta e inofensivo a outros organismos. O processo envolve a produção massiva do vírus em laboratório, criando lagartas em dieta artificial à base de feijão, caseína, germe de trigo, levedura, proteína de soja, vitaminas e antibióticos. Essas lagartas são infectadas com suspensão do vírus, multiplicam o patógeno internamente e, após morrerem, são coletadas e armazenadas. O vírus pode ser usado de duas formas: na versão impura, macerando as lagartas para aplicar diretamente em lavouras, ou na versão purificada, passando por etapas de homogeneização, filtragem, centrifugação e secagem, garantindo qualidade e padronização. O produto final pode ser liofilizado e formulado com adjuvantes para pulverização convencional. Ensaios mostraram que doses adequadas reduzem significativamente a população da praga e o consumo foliar, alcançando eficiência comparável aos inseticidas químicos, sem impactos negativos ao ambiente. O vírus é mais eficaz em lagartas jovens, devendo ser aplicado no início da infestação, quando há menos de 20 indivíduos por metro linear de soja. Estudos de campo em áreas do Paraná confirmaram a redução de desfolhamento e manutenção da produtividade, semelhante às áreas tratadas com químicos. O vírus mostrou persistência razoável quando aplicado com adjuvantes como argila, resistindo melhor à radiação solar. Assim, a invenção representa um avanço sustentável no manejo da soja, oferecendo uma alternativa mais barata, segura e ambientalmente correta para o controle da Anticarsia gemmatalis.

Após a constatação da viabilidade técnico-econômica em testes-piloto realizados em diferentes regiões produtoras de soja no Paraná por duas safras consecutivas (1980/81 e 1981/82), foi iniciada a difusão da técnica de aplicação do baculovírus na safra 1982/83, primeiramente no Paraná e Rio Grande do Sul. A área de soja tratada com Baculovirus anticarsia no Brasil cresceu rapidamente, de 2.000 hectares em 1982/83 para mais de 500.000 ha em 1987/88, o que atesta o sucesso desse método de controle biológico. Ressalta-se que, em termos de área atingida, este é o maior programa de uso de vírus de insetos, em nível mundial.

A Embrapa Soja foi a primeira instituição de pesquisa do Brasil a utilizar um vírus para controlar naturalmente uma praga nas plantas. O Baculovirus anticarsia é um agente biológico capaz de controlar a lagarta da soja Anticarsia gemmatalis. Utilizado em 1,4 milhão de hectares cultivados com soja no Brasil, o Baculovirus anticarsia proporciona anualmente ao País, uma economia estimada em 13 milhões de reais/ano, uma vez que elimina a aplicação de cerca de 1,2 milhão de litros de inseticidas nas lavouras brasileiras. A Embrapa Soja desenvolveu a tecnologia de formulação do produto em pó, o que tem facilitado sua aplicação nas lavouras. O Baculovirus também pode ser produzido na propriedade, através da coleta e armazenamento de lagartas mortas pelo vírus. O Baculovírus anticarsia está sendo utilizado em outros países da América Latina, como Argentina, Paraguai e Bolívia. Hoje, o produto biológico já é produzido por empresas privadas e tem um rigoroso controle de qualidade supervisionado pela Embrapa Soja.



Flávio Moscardi era engenheiro-agrônomo, graduado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), onde estagiou sob a supervisão dos doutores Octávio Nakano, em controle de pragas agrícolas, e Roger Williams, professor visitante da Ohio State University. Estes professores exerceram grande influência na escolha profissional de Moscardi pela área de entomologia, na qual realizou mestrado e doutorado na Universidade da Florida, nos Estados Unidos. Moscardi ingressou na Embrapa em 1974, atuando no antigo Centro de Pesquisa Agropecuária do Oeste, em Campo Grande, hoje Embrapa Gado de Corte, onde desenvolveu trabalhos com controle de formigas cortadeiras e criação de parasitóides, entre outros. Após o doutorado em biologia e ecologia da lagarta da soja, Moscardi foi transferido para a Embrapa Soja, em 1979, onde se destacou no desenvolvimento de táticas de manejo integrado de pragas, principalmente por meio do uso de inseticidas biológicos. Desenvolveu o baculovirus para o controle da lagarta-da-soja. Moscardi também foi chefe geral da Embrapa Soja durante o período de 1990 a 1995. O inseticida biológico de Flávio, que mata as lagartas da soja, já é usado em 2 milhões de hectares da lavoura no país. Com o custo altamente comeptitivo, o produto fez os agricultores brasileiros economizarem mais de R$ 150 milhões e ainda evitou danos ao meio ambiente, porque não usa química. Pesquisador da Embrapa Soja, Flávio é do tempo em que os inventores não recebiam royalties.

Durante sua carreira, Moscardi veiculou mais de duzentas publicações, incluindo artigos científicos em vários periódicos reconhecidos nacional e internacionalmente, além de capítulos de livros, trabalhos completos em anais de eventos e publicações específicas da Embrapa. Atuou como professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Estadual de Londrina (UEL), membro do Conselho Assessor de Agronomia do CNPQ, foi presidente da Sociedade Entomológica do Brasil (SEB) de 1998 a 2002, além de ter presidido congressos nacionais e internacionais e ter atuado intensivamente em comitês e comissões relacionadas à sua área de atuação. Foi membro de comitês editoriais e consultor ad hoc de revistas nacionais e do exterior. Atuou como consultor em Manejo Integrado de Pragas (MIP) e controle biológico em vários países (como Argentina, Paraguai e Uruguai).

Pelas suas contribuições recebeu uma série de premiações e homenagens das quais se destacam: membro da Academia Brasileira de Ciências, em 2003; comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, outorgada pelo Presidente da República do Brasil em agosto de 2002; láurea do Mérito Profissional, entregue pelo Sistema CONFEA/CREAS - 2001; medalha Paulista do Mérito Científico e Tecnológico, entregue pelo Governo do Estado de São Paulo, em 2001; Award in Agriculture, entregue pela Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento em 1997; Award of Distinction, entregue pela Sociedade Internacional de Proteção de Plantas em 1995; prêmio Frederico de Menezes Veiga, entregue pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária -Embrapa, em 1991. Flávio Moscardi faleceu em 2012.

Resumo: PI8500568 Refere-se a presente invenção a um processo de produção do Baculcvirus anticarsia para o controle biológico da lagarta da soja, Anticarsia gemmatalis e respectivo processo de purificação do vírus obtido. O processo consiste na produção do Baculovirus em condições de laboratório para uso posterior na forma impura ou para posterior processamento visando sua purificação, secagem e formulação, sendo estas etapas descritas a seguir: 1) Produção massal do Baculovirus. O vírus é multiplicado em lagartas de A. gemmatalis criadas continuamente em dieta artificial a base de feijão, caseína, germe de trigo, extrato de levedura, proteína de soja, vitaminas, agar e antibióticos, em condições controladas de laboratório. Os insetos obtidos desta maneira são inoculados com suspensão purificada do vírus (l,0 x 10e6 a 1,0 x 10e7 poliedros/ml), a qual é aspergida sobre a superfície de dieta artificial contida em copos de papelão parafinado, contendo lagartas do 49 instar (1,5 - 2,0 cm de comprimento). Os insetos inoculados são mantidos em incubadoras a 24-23C e fotoperíodo de 14 h por 7-9 dias, sendo as lagartas tipicamente mortas pelo patógeno coletadas e armazenadas em "freezer" a temperatura entre -200C a -10°C até processamento para utilização do vírus na forma impura ou para purificação. 2) Obtenção do vírus purificado. Para a obtenção de vírus purificado, visando maior qualidade e padronização do inóculo, as lagartas mortas pelo patógeno são homogeneizadas em 0,05M Tris HCI (pH 7,4 a 7,8) + 0,05 a 0,1% Sulfato Dodecil de Sódio (SDS) + 0,01 M EDTA, sendo o homogeneizado filtrado através de quatro camadas de gase ou pano fino, por três vezes, e centrifugado a 1.500 rpm por dois minutos. O sobrenadante é em seguida centrifugado a 6.000 rpm por 20 minutos, sendo o "pellet" obtido ressuspendido em água destilada. Para posterior purificação dos poliedros a suspensão anterior é centrifugada em gradientes de sucrose (40-60%) a 6.000 rpm por 20 minutos. O pellet" contendo poliedros do vírus é ressuspendido em água destilada para posterior secagem por filtragem a vácuo, após coprecipitação por lactose (6 a 10%) e acetona (4 volumes), por liofilização ou outros métodos disponíveis. Ao vírus em pó podem ser adicionados adjuvantes para aplicação a campo por equipamentos convencionais de pulverização.

Patentes: Onde o Brasil perde, Sindicato da indústria de Artefatos de papel, Papelão e Cortiça no Estado de São Paulo, dez/93, pg 9
Cronologia do Desenvolvimento Científico e Tecnológico Brasileriro, 1950-200, MDIC, Brasília, 2002, páginas 357
Revista Época de 25 agosto de 2003, página 43 "A Revolução do saber" Ana Magdalena Horta, Marcelo Aguiar e Estela Caparelli

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