Alcides Godoy nasceu em Campinas, em 7 de janeiro de 1880, filho de Francisco Xavier de Morais Godoy e Anna Pureza de Campos Godoy, fazendeiros de café. Na mesma cidade, cursou o preparatório, no Colégio Culto À Ciência. Temendo a febre amarela, que assolava a cidade do Rio de Janeiro ao final do século XIX, iniciou seus estudos na Faculdade de Medicina da Bahia; na expectativa de que uma estadia em Salvador produzisse imunidade para aquela doença. Depois de uma breve interrupção no curso, devido a dificuldades financeiras produzidas pela crise na produção cafeeira, Godoy seguiu para a capital federal, ingressando na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formaria em 1903, obtendo o grau de doutor, em dezembro de 1904, com a tese Electrodiagnostico.
Assim que chegou ao Rio, residiu em uma república de estudantes na Rua do Riachuelo, no Centro da cidade. A fim de prover meios para sua subsistência, incorporou-se, como flautista, à Companhia Lírica Emílio Billoro e com ela percorreu o Brasil. Em 1903, ainda estudante, ingressou, como auxiliar acadêmico, no Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, criado em abril daquele ano no âmbito da Diretoria Geral de Saúde Pública, dirigida por Oswaldo Cruz (que também era diretor técnico do Instituto Soroterápico Federal, futuro IOC). Neste mesmo ano, Godoy foi recrutado, por Oswaldo Cruz, para ir trabalhar no IOC e pouco tempo depois foi nomeado auxiliar técnico deste instituto, para trabalhar na produção de soros e vacinas. Em 1905, começou a estudar a produção de uma vacina contra a manqueira, também conhecida como doença do gado ou mal do ano. Pecuaristas de Minas Gerais haviam solicitado um imunizante contra essa epizootia, que dizimava cerca de 40% de seu gado jovem, e que grassava também em outros estados do país e em vários países da América do Sul.
Na década de 1880, a manqueira havia sido definida como carbúnculo sintomático, causada por um micro-organismo anaeróbio, o Clostridium chauvei. Ainda nessa década, Arloing, Cornevin e Thomas buscaram atenuar o germe para produzir uma vacina, mas os resultados não foram satisfatórios. No Brasil, J. Batista Lacerda também tentou, sem sucesso, a fabricação do produto. Pelos menos desde a década de 1890, Oswaldo Cruz interessou-se pelo carbúnculo sintomático, adquirindo o livro de Arloing, Cornevin e Thomas, Le Charbon symptomatique du boeuf (editado em 1887). Esta obra seria, mais tarde, ofertada por Oswaldo Cruz a Alcides Godoy. Conforme Alcides Godoy, o objetivo de Oswaldo Cruz era não somente preparar uma vacina, mas “fazer o estudo científico da moléstia, estando a parte bacteriológica apenas iniciada e limitada a seu diagnóstico microscópico (apud Taveira)". Os primeiros ensaios feitos em Manguinhos não permitiram o isolamento do germe anaeróbio causador da epizootia. Carlos Chagas estabeleceu contato com fazendeiros mineiros e um novo material para estudo foi fornecido pelo médico Hernenegildo Villaça (fazendeiro da região de Juiz de Fora), que sempre interessou muito pelas pesquisas a propósito da peste da manqueira. O material veio para Manguinhos por intermédio de Ezequiel Dias, que também fazia parte do grupo de auxiliares técnicos do Instituto.
No princípio deste século, mais precisamente em 1906, Alcides Godoy, cientista do Instituto Oswaldo Cruz, descobriu a primeira vacina veterinária do país para profilaxia de doenças infecto-contagiosas: a vacina contra o carbúnculo sintomático, mais conhecido como Peste da Manqueira. Em 1918 em conjunto com outro pesquisador da Fiocruz, Astrogildo Machado, Godoy descobriu a vacina anticarbunculosa, contra o carbúnculo hemático, também conhecida como carbúnculo verdadeiro (ou antraz). Tem havido confusão entre o Carbunculo Sintomático (Manqueira, Mal do Ano) e o Carbuculo Hemático ou verdadeiro (Carbunculo, Antraz). A primeira vacina foi a "Vacina contra a Manqueira" ou seja contra o Carbunculo Sintomático. A Vacina contra o Antraz,"Vacina Anticarbunculo, Manguinhos", foi desenvolvida cerca de 10 anos depois por Alcides Godoy e Astrogildo Machado que então trabalhava no Laboratório de Godoy no Instituto Oswaldo Cruz. As duas vacinas foram patenteadas a primeira por A.Godoy em 1908 (patente no 5566) e a segunda por A.Godoy e A.Machado em 1918 registro no 9981. A Vacina contra a Manqueira teve a sua patente renovada ao fim de 15 anos por mais 15. Em face dos problemas com o Antraz nos Estados Unidos muitos tem confundidos os dois tipos de vacinas.
A vacina contra o carbúnculo sintomático, ou peste da manqueira, foi a primeira descoberta sensacional de Manguinhos, realizada por Alcides Godoy, um médico do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela que fora deslocado para o instituto, em fins de 1905, para fazer estudos entomológicos. O desenvolvimento desta vacina partiu de uma solicitação dos pecuaristas de Minas Gerais, onde a peste da manqueira dizimava aproximadamente 40%, às vezes até 80% dos bezerros. A epizootia era muito comum também em outros estados do Brasil e em vários países da América do Sul. Em Minas ela já fora estudada por J. Batista de Lacerda, que chegou a preparar uma vacina contra a doença, com resultados insatisfatórios. Oswaldo Cruz, que qualificou estes estudos como pouco sérios do ponto de vista bacteriológico, entregou a incumbência primeiro a Ezequiel Dias e Rocha Lima, depois a Alcides Godoy.

Alcides Godoy relata: "Quando iniciei meus trabalhos no Instituto de Manguinhos, já era objeto de estudos a peste da manqueira, que se sabia ser carbúnculo sintomático, pelos trabalhos anteriores do Sr. Lacerda, ocupando-se desse assunto o Dr. Ezequiel Dias. Pretendia-se então não somente prepara uma vacina como a de Arloing Cornevin, mas, ainda, fazer o estudo científico da moléstia, estando a parte bacteriológica apenas iniciada e limitada a seu diagnóstico microscópico. Os primeiros ensaios não permitiram o isolamento do germen anaeróbico causador dessa epizootia. Provavelmente a contaminação do material tornara essa operação extremamente difícil, senão impossível. Novo material de estudo, vindo de Juiz de Fora e enviado pelo Dr. Vilaça, que sempre se interessou muito pelas pesquisas a propósito da peste manqueira, foi entregue ao Dr. Rocha Lima para continuar o trabalho já iniciado pelo Dr. Ezequiel Dias. Tendo o Dr. Rocha Lima, pela sementeira do material recebido em meio de cultura, segundo o método de Veillon, determinado o aparecimento de colônias anaeróbicas, os tubos de cultura me foram entregues, e constituíram o início dos estudos por mim continuados até a descoberta da vacina que este Instituto prepara. Devo fazer notar que aquela época nenhum dos pesquisadores desse Instituto possuía prática de trabalhos sobre o carbúnculo sintomático, o que dificultava a interpretação segura das colônias desenvolvidas nos tubos de veillon". Em caderno que possuo dessa época, estão registradas, dia a dia, os prosseguimentos dos meus estudos, a partir de 26 de julho de 1905 até 27 de julho de 1907, isto é durante cerca de dois anos, sendo que nesta última data já a questão da peste manqueira era assunto esclarecido". Diário Oficial, 23/5/1908, transcrito por Albino A. Taveira, "Resumo histórico da vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da Manqueira)", dat., 1944.
A impossibilidade no começo e a dificuldade posterior de se obter culturas virulentas do micróbio da peste da manqueira, tanto quanto à exigência daquele germe em albuminoides e à ação da glicose sobre sua vegetação, constituiam pontos essenciais no preparo da vacina e foram pelo autor resolvidas de modo exclusivo. A originalidade do processo de Godoy residia na utilização de um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, na qual a glicose tinha um papel preponderante. Com esse meio de cultura, obteve uma raça diferenciada de bactérias de virulência atenuada, o que permitiu o uso da vacina com o germe vivo (Clastridium Chauvei). Basta uma injeção de dois centímetros cúbicos para imunizar o animal durante toda a vida. Geralmente aplica-se a vacina em bezerros, nos primeiros anos, pois o animal que atinge à idade adulta, num meio infectado,está naturalmente imunizado. Logo que foram confirmadas as propriedades vacinantes das culturas de Godoy, ele partiu para Juiz de Fora, com Rocha Lima e Carlos Chagas, para executar as experiências finais, e só então a vacina começou a ser fabricada em escala comercial.
Tal acontecimento foi um marco na história da medicina veterinária brasileira e mundial. A descoberta da Vacina Manguinhos contra a Peste da Manqueira só foi conseguida com o desenvolvimento e criação de um conjunto de técnicas próprio e inovador e que até hoje permanece inédito no mundo. Trata-se de uma metodologia científica, única e específica, de absoluto sucesso, utilizada na atenuação de um microorganismo do gênero Clostridium, conhecido pela produção de diversas e potentes toxinas, dentre as quais a causadora do botulismo e a do tétano.
Em 1919, em relatório enviado ao Ministério da justiça, o Sr. Diretor do Instituto fez a seguinte citação elogiosa: "A peste da manqueira para referir a conquista mais notável do Instituto em assuntos de veterinária, deixou de constituir, como o era, um obstáculo decisivo ao desenvolvimento da indústria pastoril em vastas regiões do Brasil, graças á descoberta do Dr. Alcides Godoy, chefe do serviço do Instituto, que no invento de uma vacina resolveu o problema econômico da criação de bovídeos, tornando nulos os malefícios da peste manqueira".Após a descoberta das vacinas em 1906 e os registros das respectivas patentes em nome dos cientistas fundadores de Manguinhos, elas passaram a ser fabricadas no Instituto Oswaldo Cruz - Manguinhos, atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e exploradas comercialmente pelos próprios cientistas até que, em 1939, resolveram fundar a empresa Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, continuando a trabalhar no IOC até falecerem, respectivamente em 1950 e 1945. A firma Produtos Veterinários Manguinhos foi criada e continuou a produção das vacinas até então produzidas no IOC.
Henrique da Rocha Lima, pesquisador e “braço-direito” de Oswaldo Cruz, usando técnica aprendida durante sua estadia na Alemanha, realizou a cultura do material e obteve colônias anaeróbicas. Nas palavras de Godoy, “os tubos de cultura me foram entregues e constituíram o início dos estudos por mim continuados até a descoberta da vacina”. A originalidade do processo desenvolvido por ele residia na utilização de um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, na qual a glicose tinha papel preponderante. Dessa forma, Godoy obteve uma “raça” diferenciada de bactérias de virulência atenuada, o que permitiu o uso da vacina com o germe vivo. Logo que foram confirmadas, em laboratório, as propriedades vacinantes de suas culturas, Godoy viajou, em 1906, para Juiz de Fora, em companhia de Rocha Lima e Carlos Chagas, para executar os testes finais. A primeira demonstração pública da vacina, entretanto, não obteve o resultado esperado, e alguns animais faleceram. Retornando a Manguinhos, os pesquisadores determinaram a causa do insucesso: uma maior virulência do lote da vacina preparada para o teste. Corrigida a falha, novas inoculações foram, então, “coroadas do mais satisfatório resultado, desde então jamais desmentido...”.
A vacina contra a manqueira começou a ser distribuída e vendida já em 1906. Ela imunizava o gado com uma só aplicação. Na exposição de demografia e higiene realizada de Berlim, em junho de 1907, na qual o Instituto obteve a medalha de ouro, a vacina da manqueira foi um dos destaques selecionados, dentre os produtos fabricados para representar as atividades do IOC. A premiação em Berlim foi determinante para que o Ministério da Justiça e Negócios Interiores aprovasse um novo regulamento, proposto por Oswaldo Cruz, visando expandir de modo expressivo as atribuições do Instituto, que passaria a gozar de considerável autonomia administrativa e financeira, sendo esta última garantida, principalmente, pela renda advinda da venda da vacina na manqueira. Tais recursos, que permitiam ao Instituto não depender apenas do orçamento governamental, foram fundamentais para contratar novos pesquisadores e, assim, ampliar o quadro de pessoal da instituição. O próprio Oswaldo Cruz, em função da repercussão e da originalidade do processo desenvolvido por Godoy, aconselhou-o a patentear em seu nome a invenção.
Depois de registrar a patente da vacina, em 24 de novembro de 1908, (Carta patente n 5.566, publicada no Diário Oficial de 6 de dezembro de 1908), Godoy lavrou em cartório uma escritura de cessão, lavrada no Tabelião Evaristo Vale de barros, em 11.12.1908, transferindo sua invenção para o Instituto Oswaldo Cruz, na condição de reverter em favor de suas atividades científicas a exploração industrial do produto, sob pena de ficar sem efeito a concessão. Por entendimento verbal entre Oswaldo Cruz e Godoy, ficou estabelecido que o descobridor teria direito a 5% da renda bruta da vacina até 1917, e daí em diante, 8%. Esse artifício hábil consolidou a autonomia de Manguinhos, permitindo-lhe gerir esses recursos, que seriam consideráveis, sem ter de se submeter à burocracia do Ministério da Justiça ou às rígidas determinações que presidiam a aplicação das verbas votadas pelo Congresso. Por outro lado, o estratagema criava, digamos assim, jurisprudência para um tipo de relação privativista entre a instituição e seus pesquisadores, estimulados a inventar e patentear outros produtos biológicos.
No mesmo ano de 1908, Godoy publicou, com a colaboração de Gomes de Faria (que havia sido recentemente contratado pelo IOC), um trabalho analisando as variáveis no meio de cultura que poderiam ter causado a maior virulência da vacina responsável pelos problemas em Juiz de Fora, confirmando-se que a concentração da glicose havia sido a responsável pela redução da virulência da vacina (aspecto que havia sido identificado e solucionado por Godoy naquela ocasião, em 1906). Além de dedicar-se ao tema da manqueira, como sua atividade principal, Godoy desenvolvia outras atividades – como era de praxe entre todos os pesquisadores de Manguinhos –, como a produção dos soros antidiftérico e antitetânico, e na dosagem do soro antipestoso. Com Astrogildo Machado, desenvolveu, em 1918, outra importante vacina produzida e comercializada pelo IOC, contra o carbúnculo hemático.
Segundo Simon Schwartzman: "Os recursos para financiar boa parte dessas pesquisas vinham não do custeio do Instituto pelo governo federal, mas do que ficou conhecido como a “verba da manqueira”. Em 1908 Alcides Godói e José Gomes de Faria desenvolveram uma vacina muito eficaz contra a “manqueira”, uma doença que afetava o gado brasileiro. Doaram ao Instituto a patente dessa vacina, e os lucros com a venda da vacina serviam agora para equipar laboratórios, pagar novos pesquisadores e financiar as viagens dos técnicos pelo Brasil ou aos países vizinhos, em busca de novos problemas e novas soluções. A doação dessa patente nos diz algo sobre o clima que prevalecia no Instituto. Encerrados em uma fazenda, no que na época era um local afastado da cidade, os cientistas do Instituto se consideravam um grupo de pessoas muito especiais, dedicadas a uma causa nobre. Por essa mesma razão era muito difícil introduzir-se no grupo. Quem quisesse ser aceito precisava antes fazer um curso prático muito difícil, depois de completar os primeiros anos da escola de medicina. Para ter o direito de trabalhar depois como internos do Instituto, os candidatos precisavam ter uma presença perfeita no curso de dois anos. E como internos estavam ainda em regime de experiência, trabalhando sem ganhar para os pesquisadores titulares que os aceitassem, até que surgisse uma oportunidade de integrar o grupo permanente. Os próprios candidatos consideravam esses testes necessários para serem admitidos à instituição que era considerada a única no Brasil onde se praticava a ciência genuína. Além do ambiente estimulante, o Instituto dispunha de uma excelente biblioteca, uma boa infra-estrutura e excelentes técnicos --- inclusive sopradores de vidro, eletricistas e mecânicos, todos treinados pelos próprios pesquisadores mais graduados. Uma vez admitidos, os candidatos podiam esperar que seu trabalho fosse não só reconhecido mais usado nas muitas campanhas promovidas pelas autoridades sanitárias com as quais o Instituto estava ligado."
A famosa verba da manqueira, contabilizada à parte, teve importância vital na sustentação do Instituto Oswaldo Cruz, sobretudo nas conjunturas recessivas do país, com ela foram pagos os salários de muitos pesquisadores e funcionários, parte das despesas com as novas construções, a impressão das Memórias e uma infinidade de outros itens. Devido à importância dessa fonte de recursos, o Instituto empenhou-se a fundo em disseminar o uso da vacina nas zonas pastoris do Brasil. Grande parte dos fornecimentos fazia-se por intermédio do Ministério da Agricultura e outros órgãos públicos estaduais ou municipais. Basta salientar, que, entre outras rendas arrecadadas pelo Instituto, predominava a da manqueira, pela qual foi custeada a maioria das despesas do pessoal contratado e de material até 1930, além da despesa total do Instituto nos anos de 1931 e 1932, na importância média de Cr$ 880 mil anuais, em virtude de ter havido corte orçamentário nos ditos anos. Tendo o governo concedido apenas Cr$ 30 mil para material em 1933 e Cr$ 30 mil para 1934, foi a citada renda um fator preponderante para a manutenção dos encargos do Instituto.
Face à ineficiência da rede de distribuição do Estado, Oswaldo Cruz chegou a organizar, em 1913, uma seção de Propaganda da Vacina contra a peste da Manqueira, a cargo de Eduardo Dale, que naquele ano percorreu todos os municípios do Rio Grande do Sul, desencalhando os estoques acumulados nas inspetorias do Ministério da Agricultura, divulgando a vacina pelos pequenos jornais interioranos, fazendo demonstrações práticas de seu uso e nomeando agentes da vacina do instituto entre os maiores estancieiros da região. Além da vacina contra o carbúnculo sintomático - doença conhecida localmente como mal do ano ou ando ou ainda quarto inchado -, Dale fazia propaganda da vacina contra o carbúnculo verdadeiro ou hemático, que os gaúchos denominavam mancha.
Em 1937 porém surgiu um grande obstáculo para o cumprimento do acordo: é que o Governo reformado o Ministério da Educação pela lei 378 de 13 de janeiro de 1937, ao Instituto foi proibido a partir de 15 deste mês (data da publicação da lei, a aplicação das rendas de soros e vacinas diretamente no custeio dos seus serviços: "a renda de qualquer serviço se incorporará obrigatoriamente ao orçamento da recita, incluindo-se no da despesa as dotações necessárias ao custeio de todas as suas atividades". Posteriormente tendo o art. 68 da Constituição de novembro de 1937 consolidada a mesma proibição e ainda por determinar o inciso 7 da Exposição de Motivos do decreto lei n.82 de 16.12.1937 que a s atividades industriais do Instituto deveriam ficar restritas aos produtos de aplicação na medicina humana, foi consultado o Conselho Federal do Serviço Público Civil, o qual, considerando inconveniente o regime adotado, fez publicar no Diário oficial de 15 de fevereiro de 1938 uma resolução sob o n. 1725. A proibição foi extensiva à fabricação de vacinas para uso veterinário. Em vista dessas dificuldades, o concessionário requereu a rescisão do acordo ao Sr. Diretor do Instituto, em 16 de agosto de 1938 tendo sido o pedido encaminhado ao Ministério da Educação com o ofício n.549 de 18 do mesmo mês. Constituído o processo n.32003 de 1938, do Ministério da Educação, por despacho do Sr. Ministro foi concedida rescisão em 21 de dezembro do mesmo ano, na forma do parecer do Consultor Jurídico do mesmo Ministério.

A centralização administrativa e financeira foi reforçada pela criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) em 1938, que avocou a preparação de todos orçamentos dos órgãos federais. Os detentores de patentes de Invenção de produtos biológicos foram proibidos de auferir percentagens sobre a sua venda ao publico. O Instituto deixou, então, de fabricar as vacinas contra a peste da manqueira e o carbúnculo hemático – suas principais de renda própria que passaram para a órbita da indústria privada. Com a proibição da fabricação de seus produtos pelo Instituto, e como legalmente não podiam constituir firma para fabricar e comercializar-los, Godoy e Machado, fundaram em 25 de janeiro de 1939, em nome das respectivas senhoras Dulce de Castro Godoy e Ruth Lobo Machado (esta era cunhada de Carlos Chagas). A firma que se chamou – Produtos Veterinários Manguinhos Ltda. (memória pessoal).
Em 1939, o Ministério da Agricultura tornou obrigatório o registro dos produtos a serem comercializados. Foram então registradas a vacina Manguinhos contra a peste da manqueira em 13 de setembro de 1938, recebendo o registro nº 1, no livro 1, folha 1 e a Vacina Anticarbunculosa Manguinhos o registro nº 2 no referido livro e folha. Estes registros ainda foram pedidos através do IOC, e o Diretor Dr. ª Fontes comunicou por portaria no 213 de 31 de março de 1939 à Secretaria de Defesa Sanitária Animal, que “ atendendo ao que solicitaram os Drs. ALCIDES GODOY e ASTROGILDO MACHADO, funcionários deste Instituto, que os certificados nos. 1 e 2, dessa Diretoria, referentes aos registros das “Vacina contra a peste da Manqueira” e “Anticarbunculosa Manguinhos”, foram entregues aos mesmos senhores,conforme requereram a esta Diretoria, para efeitos de transferência de fabricação daquelas vacinas, em vista do despacho ministerial autorizando a cessação dos acordos que existiam com o Instituto para preparo e exploração comercial dos mesmos produtos.” (http://www.fiocruz.br/ccs/historia/extra_antraz.htm) Em 26 de junho de 1938, GODOY e MACHADO haviam pedido o registro da marca genérica para produtos veterinários “Manguinhos” . Nas notas do pedido do registro “Os Reqtes têm registrada a marca Vacina Anticarbunculosa Manguinhos (Cl 2)...” A marca foi registrada em 14-3-40 (Processo arquivado no Acervo da Casa de Oswaldo Cruz, Departamento de Arquivo e Documentação. Fundo Centro de Pesquisa René Rachou. 04.05.00/03.01 cx 30 maço 1). Apesar das vacinas saírem do Instituto, Godoy e Machado continuaram a trabalhar para o Instituto até falecerem respectivamente em 30 de janeiro de 1950 e 19 de janeiro de 1945. Para Simon Schwartzman a retirada da fonte de rendimentos com a produção da vacina manqueira apressou o processo de decadência do IOC qu desde então passou a ter de conar com o mecenato para que pesquisadores como Lauros Travassos, Walter Oswaldo Cruz e Evandro Chagas pudessem continuar com susas pesquisas. Para Gisele Samglard tal apoio de mecenas como Guilherme Guinle foi muito mais o fruto de seu tempo e uma adesão a um projeto de Brasil.
De 1906 a 1938 as vacinas tornaram-se nacionalmente conhecidas pelo seu grande poder de imunização, facilidade de manejo e transporte, pelo fato de serem utilizadas em temperatura ambiente, passando a ser requisitadas pelos principais criadores de gado. No mesmo período o Instituto pproduziu quase 49 milhões de vacinas dessa espécie, arrecadando mais de 16 mil contos. Porém, somente em 1939 aconteceu o primeiro lançamento de produtos veterinários oficialmente desenvolvidos no Brasil, no caso, as Vacinas Manguinhos. Há mais de 90 anos as vacinas Manguinhos, em especial, a Vacina contra Peste da Manqueira vem contribuindo eficazmente para o controle de doenças que acometem o rebanho nacional, transmitindo aos pecuaristas, total segurança e confiabilidade com a melhor relação custo/benefício. A empresa continua a comercializar a vacina contra a peste da manqueira, mas não a do carbúnculo verdadeiro.
Outros produtos biológicos de uso veterinário foram obtidos por meio de técnicas originais concebidas em Manguinhos. O próprio Alcides Godoy desenvolveu, junto com Astrogildo Machado, a vacina contra o carbúnculo verdadeiro, produto novo em relação à clássica vacina de Pasteur, e a vacina contra a diarréia dos bezerros ou pneumoenterite. A Henrique Aragão é creditada a vacina contra a espirilose das galinhas. Astrogildo Machado, sozinho, criou o Protosan, empregado contra o mal das cadeiras, uma doença de cavalos. Dentre os produtos terapêuticos destinados à medicina humana, destaca-se o tártaro emético, desenvolvido pelo patologista Gaspar Viana que ingressou no instituto em 1909, para assumir as pesquisas em anatomia patológica, até então exercidas por Rocha Lima. Empregado no tratamento da leishmaniose, o produto foi amplamente utilizado no Brasil e em vários países da África e da Ásia.
A Vacina contra a manqueira foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Formicida Matarazzo. Tendo sido incluída na lei de Despesa de 1923 uma autorização para prorrogar por 15 anos o prazo da patente de invenção, o Sr. Diretor do Instituto dirigiu ao Sr. Ministro da Justiça o ofício 478, de 9 de agosto do mesmo ano solicitando providências no sentido de ser posta em execução a mencionada prorrogação. Em consequência o governo fez publicar o Decreto n. 16.200 de 31 de outubro de 1923 que prorroga por 15 anos o prazo do privilegio de que trata a Carta de Patente de invenção, n. 5.566 de 24 de novembro 1908, que em seu artigo primeiro estabelece: "Fica prorrogado por 15 anos o prazo do privilégio a que se refere a Carta Patente n. 5.566, de 24 de novembro de 1908, concedida ao Dr. Alcides Godoy e transferida ao Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (Instituto Oswaldo Cruz) , em 24 de março de 1909, para invenção de uma nova vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da manqueira)". Os rendimentos obtidos com a venda da vacina foram fonte de verbas controladas pelo Instituto para contratar pessoal, comprar material, formar a biblioteca etc.
A experiência da vacina da peste manqueira foi pontuada por conflitos políticos e gerenciais. Nara Britto, a partir de depoimento oral de Lobato Paraense, esclarece que as discussões em torno desta vacina originaram divergências, gerando três posições sobre a aplicação dos lucros auferidos com a comercialização do produto. Oswaldo Cruz decidiu destinar os royalties da vacina aos inventores. Uma vertente apoiou a medida tomada por Oswaldo Cruz. Outro grupo pensava em aplicar as verbas em compra de materiais laboratoriais. Um terceiro grupo defendeu a distribuição equitativa dos lucros entre os pesquisadores, como forma de acréscimo salarial. Questionou-se também a “legitimidade de propriedade de um produto desenvolvido numa instituição pública”. Em relatório do Instituto Oswaldo Cruz, de 14 de fevereiro de 1912, Oswaldo Cruz tece comentários generosos em relação à atitude de desprendimento de Godoy, posto que este havia cedido a titularidade da vacina ao Instituto. Godoy condicionou a cessão à aplicação das verbas em atividades de aquisição de livros e de publicação da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, conforme Relatório do Instituto Oswaldo Cruz, de 1911 (Britto, 1995). A patente da vacina foi registrada em 24 de novembro de 1908 (carta-patente no 5.566, publicada no Diário Oficial, de 6 de dezembro de 1908), e lavrada pelo tabelião Evaristo Vale de Barros, em 11 de dezembro de 1908. O termo de cessão foi registrado em 24 de março de 1909, no livro 5, fl.132, do registro geral de privilégios, da Diretoria Geral de Indústria (Ministério da Viação e Obras Públicas). O não cumprimento das condições supracitadas invalidaria a cessão. Entendimento verbal entre Oswaldo Cruz e Alcides Godoy possibilitou o remanejamento, em favor do inventor, de 5% da renda bruta da vacina até 1917, e daí em diante, 8% (Benchimol, 1990).
As verbas da manqueira foram vitais para o Instituto, uma vez que não eram objeto da burocracia do Ministério da Justiça e não necessitavam ser submetidas aos critérios de aplicação de recursos votados pelo Congresso. Um novo tipo de parceria público-privada emergia, então, do efervescente ambiente de Manguinhos. Os royalties permitiram também o pagamento de salários de pesquisadores e funcionários e o custeio de parte das construções (Benchimol, 1990). Verdadeiras ações de marketing foram delineadas. Visando incrementar a arrecadação das vendas da vacina, esforços foram direcionados para difundir a nova tecnologia nas zonas pastoris brasileiras. À época, o Ministério da Agricultura e outros órgãos públicos estaduais ou municipais eram os responsáveis pelo fornecimento deste tipo de produto. Para superar as deficiências do sistema de distribuição, Oswaldo Cruz organizou, em 1913, uma seção de “Propaganda da Vacina contra a peste da manqueira”, sob a responsabilidade de Eduardo Dale (Benchimol, 1990). Em 1939, Alcides Godoy e Astrogildo Machado desligaram-se do Instituto e fundaram a empresa Produtos Veterinários Manguinhos Ltda. A vacina até hoje é comercializada. Como vimos, nada mais atual que a discussão sobre a proteção e a exploração comercial da vacina contra a peste da manqueira.
Outra frente importante de trabalho de Godoy em Manguinhos foi a criação de diversos dispositivos e aparelhos para facilitar e aperfeiçoar os procedimentos de produção, como o “frasco Dr. Godoy”, desenvolvido por ele para facilitar a coleta de mosquitos pelos “mata-mosquitos” que atuavam nas campanhas sanitárias. Numa época em que as atividades de produção, ensino e pesquisa eram realizadas de modo bastante conjugado pelos pesquisadores, Godoy foi também professor do curso de aplicação do Instituto, criado em 1908 para oferecer treinamento experimental nas áreas de microbiologia e zoologia médica. Godoy fez três viagens de estudo à Europa. Em 1912, foi enviado aos Laboratórios de Leipzig, na Alemanha, a fim de acompanhar pesquisas concernentes a questões de físico-química aplicada à ciência médica. Em 1919, permaneceu quatro meses na Europa; foi designado para esta viagem a partir da solicitação, feita a Manguinhos pela representação diplomática inglesa, para que algum médico embarcasse num navio inglês aportado no Rio cujo médico de bordo havia adoecido. Esta foi, conforme relatou certa ocasião, a única vez que exerceu a clínica médica. Finalmente, em 1925, esteve na Itália acompanhando Carlos Chagas no 1º Congresso de Malariologia, realizado em Roma, e para estudar os modernos processos de profilaxia da malária empregados naquele país.
Integrante do chamado “jardim da infância da ciência”, como Oswaldo Cruz carinhosamente chamava o grupo inicial de pesquisadores de Manguinhos, Godoy sempre gozou da confiança e apreço tanto de Cruz quanto de seu sucessor, Carlos Chagas, substituindo-os, várias vezes, em suas ausências, na direção do instituto. Em 1923, Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Formicida Matarazzo. Em 1937, como consequência da reforma implementada por Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde (criado em 1930, no âmbito da Revolução de 1930), foi vedada ao IOC a fabricação e comercialização desse e outros produtos veterinários.
Em 26 de junho de 1938, Godoy e Machado pediram o registro da marca genérica para produtos veterinários Manguinhos. Suas famílias fundaram em 25 de janeiro de 1939, uma firma que se chamou Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, para fabricar e comercializar a vacina da manqueira, do carbúnculo hemático, e posteriormente a vacina contra a pneumoenterite dos porcos. O primeiro lugar em que estabeleceram o laboratório foi em prédio nos fundos do Hospital Gaffrée Guinle, na Rua Silva Ramos 20. Tiveram por muitos anos escritório na Rua Uruguaiana 33. Na década de 40 construíram um laboratório na Rua Licinio Cardoso 91 (hoje Rua Francisco Manuel), em Benfica. Godoy casou-se com Dulce Leite de Castro em 5 setembro de 1923 e tiveram dois filhos: Oswaldo Tarcisio, que veio a se formar em Química Industrial e Engenharia Química e Margarida Maria, que estudou musica, tocava piano e estudou na Europa. Faleceu em 30 de janeiro de 1950, aos 70 anos. Na década de 60 a família Godoy saiu da sociedade, que ficou com a família de Machado. A firma, que continua a fabricar a vacina da manqueira, foi vendida recentemente pelos seus descendentes e pertence hoje à empresa Bravet.