quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

#250 VALE / IFES 202021019084 ROBÔ AUTÔNOMO COM PLATAFORMA RETRÁTIL PARA INSPEÇÃO DE VIAS FÉRREAS

202021019084 ROBÔ AUTÔNOMO COM PLATAFORMA RETRÁTIL PARA INSPEÇÃO DE VIAS FÉRREAS

Depósito: 24/09/2021

Destaque:  licenciado para Vale do Rio Doce

Inventor:  ANDRÉ STANZANI FRANCA / MARIANA RAMPINELLI FERNANDES / SHIRLEY PERONI NEVES CANI / FABRICIO BORTOLINI DE SÁ / RAVI OLIVEIRA AVANCINI / GABRIEL MARQUES FALÇONI

Titular: INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO ESPÍRITO SANTO - IFES (BR/ES) / VALE S.A. (BR/RJ)




O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu, em 25 de novembro, a carta patente do modelo de utilidade intitulado “Robô autônomo com plataforma retrátil para inspeção de vias férreas”, resultado de um projeto desenvolvido conjuntamente pela Vale S.A. e pelo Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). A inovação representa um importante avanço para a segurança e a manutenção das ferrovias no Brasil, pois possibilita a inspeção dos trilhos sem a necessidade de paralisação do tráfego ferroviário.

A equipe responsável pelo depósito da patente, realizado em 2021, é composta por pesquisadores do Ifes em colaboração com especialistas da multinacional Vale S.A. O grupo de inventores reúne André Stanzani França, Mariana Rampinelli Fernandes, Shirley Peroni Neves Cani, Fabricio Bortolini de Sá, Ravi Oliveira Avancini e Gabriel Marques Falçoni, além da contribuição de estudantes de graduação e de pós-graduação.

De acordo com a pesquisadora Mariana Rampinelli, o desenvolvimento do robô teve origem em uma demanda apresentada pela Vale relacionada à manutenção dos trilhos, especialmente da região conhecida como boleto, que apresenta desgaste progressivo ao longo do tempo. “A proposta inicial era buscar alternativas para executar essa manutenção de forma autônoma”, explica. Tradicionalmente, a inspeção é realizada por meio de veículos adaptados que percorrem a via férrea com inspetores a bordo, registrando imagens para análise posterior. Esse procedimento, além de demorado, exige a interrupção do tráfego, uma vez que a ocupação do trecho é identificada pelo sistema de controle ferroviário, impedindo a circulação de trens por razões de segurança.

O principal diferencial do equipamento patenteado está em seu mecanismo retrátil. Segundo Mariana, o grande desafio foi conceber uma solução que não comprometesse a operação da ferrovia. “A alternativa encontrada foi projetar um robô autônomo, compacto e leve, capaz de se recolher e se alojar entre os trilhos ao detectar a aproximação de um trem, permitindo sua passagem sem causar qualquer dano”, afirma.

A professora Shirley Peroni ressalta que a tecnologia permite a atuação simultânea de diversos robôs em diferentes pontos da malha ferroviária. “O sistema antecipa a chegada do trem, recolhe-se sob o boleto, entre os dormentes, e depois retorna automaticamente à posição de inspeção”, detalha. O robô também é capaz de registrar imagens completas do trilho — abrangendo boleto, alma e patim — além do entorno da via, como o lastro e o gabarito, o que amplia significativamente a qualidade e o alcance das inspeções realizadas.

Outro elemento inovador do projeto é a adoção de tecnologia aberta, que garante à empresa acesso direto aos dados brutos obtidos pelos sensores e câmeras. Diferentemente de soluções comerciais fechadas, essa abordagem permite o desenvolvimento de algoritmos próprios para o processamento e a análise das informações coletadas. Sob a perspectiva da segurança operacional, os ganhos são relevantes. “Reduzimos a exposição de trabalhadores a situações de risco na linha férrea e diminuímos a chance de falhas associadas ao bloqueio de tráfego”, destaca Mariana. Além disso, a eficiência do processo é ampliada: enquanto uma inspeção completa da Estrada de Ferro Vitória a Minas pode levar até dois meses pelos métodos convencionais, o uso simultâneo de vários robôs tende a reduzir significativamente esse prazo.

A parceria entre a Vale e o Ifes também trouxe benefícios diretos à formação acadêmica dos estudantes envolvidos. O projeto contou com a participação de quatro alunos de graduação, das áreas de Engenharia Elétrica e Mecânica, e de um estudante de mestrado, sendo que dois deles figuram como coautores da patente. “A Vale demonstrou grande compromisso com o projeto, oferecendo capacitações e viabilizando visitas técnicas para que os alunos tivessem contato com a realidade da operação ferroviária”, observa Shirley. “Essa interação favorece a interdisciplinaridade e aproxima os estudantes do ambiente profissional, contribuindo para sua preparação para o mercado de trabalho.”


Resumo: 202021019084 O presente modelo de utilidade refere-se a um robô autônomo (10) com plataforma retrátil para inspeção de trilhos (51, 52) de vias férreas compreendendo: uma plataforma semiaberta formada por um chassi (20); um motor (15); um mecanismo de recolhimento de roda; e, um mecanismo de elevação para elevar a estrutura de chassi; em que: o mecanismo de recolhimento de roda compreende dois eixos concêntricos, sendo um interno (12) e outro externo (13), em que: o eixo externo (13) é apoiado sobre pelo menos um mancal (14) que restringe seu movimento axial e permite sua rotação; e, o eixo interno (12) atravessa o interior do eixo externo (13) e é axialmente deslizável no interior do mesmo, o eixo interno compreendendo um batente (17) em uma primeira extremidade e uma roda (11) em uma segunda extremidade; e, uma chaveta (16) é utilizada em um rasgo de chaveta do eixo interno (12) para transmitir movimento rotacional do eixo externo (13) para o eixo interno (12) ao mesmo tempo em que permite o movimento axial entre os mesmos; o mecanismo de elevação compreende pelo menos dois atuadores telescópicos (40) em uma porção anterior e em uma porção posterior da plataforma, em que um comprimento dos atuadores telescópicos (40), quando recolhidos, é menor ou igual à altura da estrutura do chassi (20), e em que um comprimento dos atuadores telescópicos (20), quando estendidos, é maior do que a altura dos trilhos (51, 52).


terça-feira, 2 de dezembro de 2025

#249 n.3422 PIRELIÓFORO

n.3422 PIRELIÓFORO

Depósito: 24/08/1901

Destaque:  pioneiro em energias renováveis

Inventor:  Manuel António Gomes “Himalaia”

Titular: Manuel António Gomes “Himalaia”



Manuel António Gomes (1868–1933), conhecido como Padre Himalaia, foi um sacerdote católico e inventor português, natural de Cendufe, em Arcos de Valdevez. Proveniente de família de lavradores, destacou-se desde jovem pela curiosidade científica. No Seminário de Braga recebeu o apelido “Himalaia” devido à sua altura, nome que adotou para toda a vida. Atuou como professor, preceptor, arquiteto e capelão, passando mais de trinta anos no Hospício da Caridade de Viana do Castelo.

Sua vocação técnica surgiu cedo: aos 17 anos criou uma máquina para melhorar a fertilidade do solo, embora não tenha patenteado o invento. Ao longo da vida dedicou-se intensamente às ciências naturais — Astronomia, Química, Física, Botânica e Zoologia — que via como essenciais ao progresso humano e até à defesa da fé diante da modernidade científica. Viajou pela Europa, EUA e Argentina em busca de conhecimento e apoio financeiro, mas manteve sempre grande preocupação com o atraso científico e industrial de Portugal, participando ativamente de debates sobre educação, com propostas práticas voltadas ao desenvolvimento econômico e social.

Seu invento mais famoso foi o Pirelióforo, um grande forno solar construído em quatro versões entre 1899 e 1904. Utilizava espelhos para concentrar os raios solares em um cadinho capaz de atingir até 3.800 °C, fundindo rochas e metais. A última versão foi apresentada na Exposição Universal de Saint Louis (1904), onde recebeu o Grand Prix, garantindo reconhecimento internacional e ampla cobertura da imprensa e tendo sido concedida patente US797891. As primeiras experiências ocorreram em Paris e nos Pirenéus, alcançando temperaturas significativas. A terceira versão foi apresentada em Lisboa em 1902, com demonstração diante de cientistas e do rei D. Carlos. Após a exposição em 1904, a máquina foi desmontada e acabou sendo roubada, fato que contribuiu para o abandono do projeto pelo inventor. O Padre Himalaia, mesmo sem reconhecimento institucional robusto em Portugal, foi pioneiro no aproveitamento da energia solar e influenciou desenvolvimentos posteriores em tecnologias solares.


Resumo: n.3422 


Referências:

INPI. INVENÇÕES NO BRASIL IMPERIAL E REPUBLICANO: O PENSAMENTO INVENTIVO NAS ORIGENS DA INDUSTRIALIZAÇÃO, Rio de Janeiro: INPI, 2025, p. 251-254



Tinoco, A. (2012). Portugal na Exposição Universal de 1904 - O Padre Himalaia e o Pirelióforo. Cadernos De Sociomuseologia, 42(42). Obtido de https://revistas.ulusofona.pt/index.php/cadernosociomuseologia/article/view/2830

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

#248 MÁQUINA DE DESCASCAR CAFÉ

MÁQUINA DE DESCASCAR CAFÉ

Depósito: 13/07/1822

Destaque:  patente pioneira sob o Alvará de 1809

Inventor:  Luis Souvain, e Simão Clothe,

Titular: Luis Souvain, e Simão Clothe,



Registro da consulta sobre o requerimento de Luis Souvain e Simão Clothe em que pedem privilégio exclusivo por dez anos para uma máquina[1] de descascar café[2] de sua invenção.

Privilégio sobre máquina de descascar café

Senhor

Vossa Alteza Real[3] por portaria expedida pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino do Brasil, em data de quatro de maio do corrente ano ordenou, que este Tribunal da Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação[4], consultasse com efeito o que lhe parecesse sobre o requerimento de Luis Souvain e Simão Clothe, o qual é do teor seguinte.

 Senhor 

Diz Luis Souvain e Simão Clothe, que eles têm inventado uma máquina para descascar café, a qual além de ser inteiramente própria da invenção dos suplicantes, produz todo o bom resultado, ou seja pela perfeição, com que descasca o café sem lhe quebrar o grão, ou seja pela brevidade, economia, e simplicidade do trabalho, como se poderá ver por exame feito à mesma máquina, que se bem está construída para ser trabalhada por um homem, é suscetível de maquinismo próprio para ser movida ou por um animal, ou por água. E como esta máquina é toda da invenção dos suplicantes, requerem estes a Vossa Alteza Real o privilégio exclusivo por dez anos dentro dos quais os suplicantes possam construir esta máquina com as penas estabelecidas contra os que a fizerem, ou as [sic] mandarem fazer sem licença dos suplicantes, como é de costume em todos os países, onde se favorece a indústria[5] e se premia o merecimento dos inventores e artistas. Os suplicantes em reconhecimento a esta graça que imploram a Vossa Alteza Real, depositam gratuitamente um modelo exato da dita máquina na casa destinada para recepção e exposição pública de máquinas estabelecidas nesta cidade, portanto: Pede a Vossa Alteza Real haja por bem conceder aos suplicantes o privilégio que suplicam uma vez que examinada a dita máquina se conheça ser ela propriamente da invenção dos suplicantes, e produzir o resultado desejado. E receberá mercê = Luis Souvain e Simon [sic] Clothe

O Tribunal por portaria de sete do dito mês e ano encarregou ao seu deputado Inspetor das Fábricas o exame da referida máquina, e o mesmo ministro depois dos exames a que procedeu acompanhado do maquinista Gaspar José Marques deu a informação seguinte.

Senhor

Em portaria de sete de maio do presente ano ordena Vossa Alteza Real informe com o meu parecer o requerimento de Luis Souvain e Simão Clothe, em que pedem o privilégio deles somente poderem construir no espaço de dez anos a máquina que inventaram para descascar café; impondo-se as penas da lei a toda a outra pessoa, que sem licença dos suplicantes a fizer, ou mandar construir. Passando a ver a dita máquina, e fazendo examinar a sua construção pelo artista Gaspar José Marques, levo à presença de Vossa Alteza Real a sua exposição, à vista da qual, e do exame feito, pelo qual se conhece que a máquina descasca, e limpa dois alqueires de café em dez minutos, me parece que os suplicantes se fazem dignos da graça que pedem. Vossa Alteza Real porém mandará o que for mais justo. Rio de Janeiro sete de junho de mil oitocentos e vinte e dois. = Leonardo Pinheiro de Vasconcelos.

E dando-se de tudo vista ao Conselheiro Fiscal respondeu assim.

“À vista da presente informação não tenho que impugnar fiscalmente – Saraiva.”

E sendo tudo visto:

Parece ao Tribunal conformar-se com o parecer e informe do conselheiro deputado Inspetor das Fábricas, e que Vossa Alteza Real se há de dignar de conceder aos suplicantes o privilégio exclusivo por dez anos que pedem em seu requerimento para que dentro dos mesmos possam eles só construir outras máquinas semelhantes à da sua invenção para descascar o café aplicando-se as penas da lei estabelecidas contra os que fizerem ou mandarem construir outras máquinas pelo modelo da dos suplicantes sem sua licença, no que tudo também conveio o Conselheiro Fiscal na sua resposta.

Vossa Alteza Real mandará o que for mais justo. Rio seis de julho de mil oitocentos e vinte e dois. Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira, Amaro Velho da Silva, José da Silva Lisboa, José Albano Fragoso. Foram votos os deputados Antonio Luis Pereira da Cunha, e Mariano José Pereira da Fonseca

O privilégio foi concedido em 13 de julho de 1822 pelo período de apenas 5 anos, conforme documento assinado por José Bonifácio de Andrada e Silva e por dom Pedro I – que então assinava pelas iniciais “PR” de Príncipe Regente (Arquivo Nacional, 2023). O exame técnico foi realizado por O exame técnico foi realizado em 25 de maio de 1822 pelo “artista” Gaspar Jozé Marques. Considerado um dos primeiros engenheiros portugueses, formado nas chamadas “artes mecânicas” e capacitado como construtor de instrumentos físicos e matemáticos, atuava na inspeção de máquinas junto à Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. No período em que esteve no Rio de Janeiro, Gaspar Marques atuou junto à Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação, na inspeção de máquinas. Esteve ainda à frente da Imprensa Nacional entre 1833 e 1838, e foi nomeado cavaleiro da Ordem de Cristo. Morreu em 1843.



Resumo: "[...]machina para descascar café, a qual além de ser inteiramente própria da invenção dos suplicantes produz todo o bom resultado [...] pela perfeição com que descasca o café sem lhe quebrar o grão, ou seja, pela brevidade, e economia, e simplicidade do trabalho [...] que se bem está construída para ser trabalhada por hum homem, he suscetível de machinismo próprio para ser movida ou por hum animal, ou por ágoa"

Referências:
MARCOLIN, Neldson. A primeira patente, Revista Fapesp, fevereiro 2002


INPI. INVENÇÕES NO BRASIL IMPERIAL E REPUBLICANO: O PENSAMENTO INVENTIVO NAS ORIGENS DA INDUSTRIALIZAÇÃO, Rio de Janeiro: INPI, 2025, p. 296-303

PÓVOA, L. M. C.; CABELLO, A. F. Análise Econômica da Primeira Lei de Patentes Brasileira. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/ CONLEG/Senado, março/2016 (Texto para Discussão nº 192). Disponível em: www.senado.leg.br/estudos. Acesso em 15 de março de 2016. https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/518898/TD192-Povoa_Cabello.pdf?sequence=1&isAllowed=y

RODRIGUES, Clovis. Inventiva Brasileira, Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973. v. II

CARDIA, Mirian Lopes. Arquivo Nacional. Privilégio sobre máquina de descascar café. 2018 Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/index.php?option=com_
content&view=article&id=5272:privil%C3%A9gio-sobre-m%C3%A1quinadedescascar-
caf%C3%A9&catid=2042&Itemid=215. Acesso em: 23 nov. 2024

CARVALHO, Nuno Tomaz Pires de. 200 anos do sistema brasileiro de patentes: o alvará de 28 de abril de 1809 - comércio, técnica e vida.  Imprenta: Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2009.

RIBEIRO, Luiz Claudio, OFÍCIO CRIADOR: INVENTO E PATENTE DE MÁQUINA DE BENEFICIAR CAFÉ NO BRASIL (1870-1910) https://www.academia.edu/2115660/OF%C3%8DCIO_CRIADOR

Gaspar josé marques e a máquina a vapor Sua introdução em Portugal e no Brasil. Comissão Cultura da Marinha. Edições Culturas da Marinha. Lisboa. 2006.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

#247 n.5267 VACINA CONTRA CARBÚNCULO SINTOMÁTICO (PESTE DA MANQUEIRA)

n.5267 VACINA CONTRA CARBÚNCULO SINTOMÁTICO (PESTE DA MANQUEIRA E OUTROS)

Depósito: 26/10/1908

Destaque:  as verbas do licenciamento da manqueira foram vitais para a Fiocruz

Inventor:  Alcides Godoy

Titular: Alcides Godoy



Alcides Godoy nasceu em Campinas, em 7 de janeiro de 1880, filho de Francisco Xavier de Morais Godoy e Anna Pureza de Campos Godoy, fazendeiros de café. Na mesma cidade, cursou o preparatório, no Colégio Culto À Ciência. Temendo a febre amarela, que assolava a cidade do Rio de Janeiro ao final do século XIX, iniciou seus estudos na Faculdade de Medicina da Bahia; na expectativa de que uma estadia em Salvador produzisse imunidade para aquela doença. Depois de uma breve interrupção no curso, devido a dificuldades financeiras produzidas pela crise na produção cafeeira, Godoy seguiu para a capital federal, ingressando na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formaria em 1903, obtendo o grau de doutor, em dezembro de 1904, com a tese Electrodiagnostico.

Assim que chegou ao Rio, residiu em uma república de estudantes na Rua do Riachuelo, no Centro da cidade. A fim de prover meios para sua subsistência, incorporou-se, como flautista, à Companhia Lírica Emílio Billoro e com ela percorreu o Brasil. Em 1903, ainda estudante, ingressou, como auxiliar acadêmico, no Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, criado em abril daquele ano no âmbito da Diretoria Geral de Saúde Pública, dirigida por Oswaldo Cruz (que também era diretor técnico do Instituto Soroterápico Federal, futuro IOC). Neste mesmo ano, Godoy foi recrutado, por Oswaldo Cruz, para ir trabalhar no IOC e pouco tempo depois foi nomeado auxiliar técnico deste instituto, para trabalhar na produção de soros e vacinas. Em 1905, começou a estudar a produção de uma vacina contra a manqueira, também conhecida como doença do gado ou mal do ano. Pecuaristas de Minas Gerais haviam solicitado um imunizante contra essa epizootia, que dizimava cerca de 40% de seu gado jovem, e que grassava também em outros estados do país e em vários países da América do Sul.

Na década de 1880, a manqueira havia sido definida como carbúnculo sintomático, causada por um micro-organismo anaeróbio, o Clostridium chauvei. Ainda nessa década, Arloing, Cornevin e Thomas buscaram atenuar o germe para produzir uma vacina, mas os resultados não foram satisfatórios. No Brasil, J. Batista Lacerda também tentou, sem sucesso, a fabricação do produto. Pelos menos desde a década de 1890, Oswaldo Cruz interessou-se pelo carbúnculo sintomático, adquirindo o livro de Arloing, Cornevin e Thomas, Le Charbon symptomatique du boeuf (editado em 1887). Esta obra seria, mais tarde, ofertada por Oswaldo Cruz a Alcides Godoy. Conforme Alcides Godoy, o objetivo de Oswaldo Cruz era não somente preparar uma vacina, mas “fazer o estudo científico da moléstia, estando a parte bacteriológica apenas iniciada e limitada a seu diagnóstico microscópico (apud Taveira)". Os primeiros ensaios feitos em Manguinhos não permitiram o isolamento do germe anaeróbio causador da epizootia. Carlos Chagas estabeleceu contato com fazendeiros mineiros e um novo material para estudo foi fornecido pelo médico Hernenegildo Villaça (fazendeiro da região de Juiz de Fora), que sempre interessou muito pelas pesquisas a propósito da peste da manqueira. O material veio para Manguinhos por intermédio de Ezequiel Dias, que também fazia parte do grupo de auxiliares técnicos do Instituto.

No princípio deste século, mais precisamente em 1906, Alcides Godoy, cientista do Instituto Oswaldo Cruz, descobriu a primeira vacina veterinária do país para profilaxia de doenças infecto-contagiosas: a vacina contra o carbúnculo sintomático, mais conhecido como Peste da Manqueira. Em 1918 em conjunto com outro pesquisador da Fiocruz, Astrogildo Machado, Godoy descobriu a vacina anticarbunculosa, contra o carbúnculo hemático, também conhecida como carbúnculo verdadeiro (ou antraz). Tem havido confusão entre o Carbunculo Sintomático (Manqueira, Mal do Ano) e o Carbuculo Hemático ou verdadeiro (Carbunculo, Antraz). A primeira vacina foi a "Vacina contra a Manqueira" ou seja contra o Carbunculo Sintomático. A Vacina contra o Antraz,"Vacina Anticarbunculo, Manguinhos", foi desenvolvida cerca de 10 anos depois por Alcides Godoy e Astrogildo Machado que então trabalhava no Laboratório de Godoy no Instituto Oswaldo Cruz. As duas vacinas foram patenteadas a primeira por A.Godoy em 1908 (patente no 5566) e a segunda por A.Godoy e A.Machado em 1918 registro no 9981. A Vacina contra a Manqueira teve a sua patente renovada ao fim de 15 anos por mais 15. Em face dos problemas com o Antraz nos Estados Unidos muitos tem confundidos os dois tipos de vacinas.

A vacina contra o carbúnculo sintomático, ou peste da manqueira, foi a primeira descoberta sensacional de Manguinhos, realizada por Alcides Godoy, um médico do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela que fora deslocado para o instituto, em fins de 1905, para fazer estudos entomológicos. O desenvolvimento desta vacina partiu de uma solicitação dos pecuaristas de Minas Gerais, onde a peste da manqueira dizimava aproximadamente 40%, às vezes até 80% dos bezerros. A epizootia era muito comum também em outros estados do Brasil e em vários países da América do Sul. Em Minas ela já fora estudada por J. Batista de Lacerda, que chegou a preparar uma vacina contra a doença, com resultados insatisfatórios. Oswaldo Cruz, que qualificou estes estudos como pouco sérios do ponto de vista bacteriológico, entregou a incumbência primeiro a Ezequiel Dias e Rocha Lima, depois a Alcides Godoy.




Alcides Godoy relata: "Quando iniciei meus trabalhos no Instituto de Manguinhos, já era objeto de estudos a peste da manqueira, que se sabia ser carbúnculo sintomático, pelos trabalhos anteriores do Sr. Lacerda, ocupando-se desse assunto o Dr. Ezequiel Dias. Pretendia-se então não somente prepara uma vacina como a de Arloing Cornevin, mas, ainda, fazer o estudo científico da moléstia, estando a parte bacteriológica apenas iniciada e limitada a seu diagnóstico microscópico. Os primeiros ensaios não permitiram o isolamento do germen anaeróbico causador dessa epizootia. Provavelmente a contaminação do material tornara essa operação extremamente difícil, senão impossível. Novo material de estudo, vindo de Juiz de Fora e enviado pelo Dr. Vilaça, que sempre se interessou muito pelas pesquisas a propósito da peste manqueira, foi entregue ao Dr. Rocha Lima para continuar o trabalho já iniciado pelo Dr. Ezequiel Dias. Tendo o Dr. Rocha Lima, pela sementeira do material recebido em meio de cultura, segundo o método de Veillon, determinado o aparecimento de colônias anaeróbicas, os tubos de cultura me foram entregues, e constituíram o início dos estudos por mim continuados até a descoberta da vacina que este Instituto prepara. Devo fazer notar que aquela época nenhum dos pesquisadores desse Instituto possuía prática de trabalhos sobre o carbúnculo sintomático, o que dificultava a interpretação segura das colônias desenvolvidas nos tubos de veillon". Em caderno que possuo dessa época, estão registradas, dia a dia, os prosseguimentos dos meus estudos, a partir de 26 de julho de 1905 até 27 de julho de 1907, isto é durante cerca de dois anos, sendo que nesta última data já a questão da peste manqueira era assunto esclarecido". Diário Oficial, 23/5/1908, transcrito por Albino A. Taveira, "Resumo histórico da vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da Manqueira)", dat., 1944.

A impossibilidade no começo e a dificuldade posterior de se obter culturas virulentas do micróbio da peste da manqueira, tanto quanto à exigência daquele germe em albuminoides e à ação da glicose sobre sua vegetação, constituiam pontos essenciais no preparo da vacina e foram pelo autor resolvidas de modo exclusivo. A originalidade do processo de Godoy residia na utilização de um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, na qual a glicose tinha um papel preponderante. Com esse meio de cultura, obteve uma raça diferenciada de bactérias de virulência atenuada, o que permitiu o uso da vacina com o germe vivo (Clastridium Chauvei). Basta uma injeção de dois centímetros cúbicos para imunizar o animal durante toda a vida. Geralmente aplica-se a vacina em bezerros, nos primeiros anos, pois o animal que atinge à idade adulta, num meio infectado,está naturalmente imunizado. Logo que foram confirmadas as propriedades vacinantes das culturas de Godoy, ele partiu para Juiz de Fora, com Rocha Lima e Carlos Chagas, para executar as experiências finais, e só então a vacina começou a ser fabricada em escala comercial.

Tal acontecimento foi um marco na história da medicina veterinária brasileira e mundial. A descoberta da Vacina Manguinhos contra a Peste da Manqueira só foi conseguida com o desenvolvimento e criação de um conjunto de técnicas próprio e inovador e que até hoje permanece inédito no mundo. Trata-se de uma metodologia científica, única e específica, de absoluto sucesso, utilizada na atenuação de um microorganismo do gênero Clostridium, conhecido pela produção de diversas e potentes toxinas, dentre as quais a causadora do botulismo e a do tétano.

Em 1919, em relatório enviado ao Ministério da justiça, o Sr. Diretor do Instituto fez a seguinte citação elogiosa: "A peste da manqueira para referir a conquista mais notável do Instituto em assuntos de veterinária, deixou de constituir, como o era, um obstáculo decisivo ao desenvolvimento da indústria pastoril em vastas regiões do Brasil, graças á descoberta do Dr. Alcides Godoy, chefe do serviço do Instituto, que no invento de uma vacina resolveu o problema econômico da criação de bovídeos, tornando nulos os malefícios da peste manqueira".Após a descoberta das vacinas em 1906 e os registros das respectivas patentes em nome dos cientistas fundadores de Manguinhos, elas passaram a ser fabricadas no Instituto Oswaldo Cruz - Manguinhos, atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e exploradas comercialmente pelos próprios cientistas até que, em 1939, resolveram fundar a empresa Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, continuando a trabalhar no IOC até falecerem, respectivamente em 1950 e 1945. A firma Produtos Veterinários Manguinhos foi criada e continuou a produção das vacinas até então produzidas no IOC.

Henrique da Rocha Lima, pesquisador e “braço-direito” de Oswaldo Cruz, usando técnica aprendida durante sua estadia na Alemanha, realizou a cultura do material e obteve colônias anaeróbicas. Nas palavras de Godoy, “os tubos de cultura me foram entregues e constituíram o início dos estudos por mim continuados até a descoberta da vacina”. A originalidade do processo desenvolvido por ele residia na utilização de um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, na qual a glicose tinha papel preponderante. Dessa forma, Godoy obteve uma “raça” diferenciada de bactérias de virulência atenuada, o que permitiu o uso da vacina com o germe vivo. Logo que foram confirmadas, em laboratório, as propriedades vacinantes de suas culturas, Godoy viajou, em 1906, para Juiz de Fora, em companhia de Rocha Lima e Carlos Chagas, para executar os testes finais. A primeira demonstração pública da vacina, entretanto, não obteve o resultado esperado, e alguns animais faleceram. Retornando a Manguinhos, os pesquisadores determinaram a causa do insucesso: uma maior virulência do lote da vacina preparada para o teste. Corrigida a falha, novas inoculações foram, então, “coroadas do mais satisfatório resultado, desde então jamais desmentido...”.

A vacina contra a manqueira começou a ser distribuída e vendida já em 1906. Ela imunizava o gado com uma só aplicação. Na exposição de demografia e higiene realizada de Berlim, em junho de 1907, na qual o Instituto obteve a medalha de ouro, a vacina da manqueira foi um dos destaques selecionados, dentre os produtos fabricados para representar as atividades do IOC. A premiação em Berlim foi determinante para que o Ministério da Justiça e Negócios Interiores aprovasse um novo regulamento, proposto por Oswaldo Cruz, visando expandir de modo expressivo as atribuições do Instituto, que passaria a gozar de considerável autonomia administrativa e financeira, sendo esta última garantida, principalmente, pela renda advinda da venda da vacina na manqueira. Tais recursos, que permitiam ao Instituto não depender apenas do orçamento governamental, foram fundamentais para contratar novos pesquisadores e, assim, ampliar o quadro de pessoal da instituição. O próprio Oswaldo Cruz, em função da repercussão e da originalidade do processo desenvolvido por Godoy, aconselhou-o a patentear em seu nome a invenção.

Depois de registrar a patente da vacina, em 24 de novembro de 1908, (Carta patente n 5.566, publicada no Diário Oficial de 6 de dezembro de 1908), Godoy lavrou em cartório uma escritura de cessão, lavrada no Tabelião Evaristo Vale de barros, em 11.12.1908, transferindo sua invenção para o Instituto Oswaldo Cruz, na condição de reverter em favor de suas atividades científicas a exploração industrial do produto, sob pena de ficar sem efeito a concessão. Por entendimento verbal entre Oswaldo Cruz e Godoy, ficou estabelecido que o descobridor teria direito a 5% da renda bruta da vacina até 1917, e daí em diante, 8%. Esse artifício hábil consolidou a autonomia de Manguinhos, permitindo-lhe gerir esses recursos, que seriam consideráveis, sem ter de se submeter à burocracia do Ministério da Justiça ou às rígidas determinações que presidiam a aplicação das verbas votadas pelo Congresso. Por outro lado, o estratagema criava, digamos assim, jurisprudência para um tipo de relação privativista entre a instituição e seus pesquisadores, estimulados a inventar e patentear outros produtos biológicos.

No mesmo ano de 1908, Godoy publicou, com a colaboração de Gomes de Faria (que havia sido recentemente contratado pelo IOC), um trabalho analisando as variáveis no meio de cultura que poderiam ter causado a maior virulência da vacina responsável pelos problemas em Juiz de Fora, confirmando-se que a concentração da glicose havia sido a responsável pela redução da virulência da vacina (aspecto que havia sido identificado e solucionado por Godoy naquela ocasião, em 1906). Além de dedicar-se ao tema da manqueira, como sua atividade principal, Godoy desenvolvia outras atividades – como era de praxe entre todos os pesquisadores de Manguinhos –, como a produção dos soros antidiftérico e antitetânico, e na dosagem do soro antipestoso. Com Astrogildo Machado, desenvolveu, em 1918, outra importante vacina produzida e comercializada pelo IOC, contra o carbúnculo hemático.

Segundo Simon Schwartzman: "Os recursos para financiar boa parte dessas pesquisas vinham não do custeio do Instituto pelo governo federal, mas do que ficou conhecido como a “verba da manqueira”. Em 1908 Alcides Godói e José Gomes de Faria desenvolveram uma vacina muito eficaz contra a “manqueira”, uma doença que afetava o gado brasileiro. Doaram ao Instituto a patente dessa vacina, e os lucros com a venda da vacina serviam agora para equipar laboratórios, pagar novos pesquisadores e financiar as viagens dos técnicos pelo Brasil ou aos países vizinhos, em busca de novos problemas e novas soluções. A doação dessa patente nos diz algo sobre o clima que prevalecia no Instituto. Encerrados em uma fazenda, no que na época era um local afastado da cidade, os cientistas do Instituto se consideravam um grupo de pessoas muito especiais, dedicadas a uma causa nobre. Por essa mesma razão era muito difícil introduzir-se no grupo. Quem quisesse ser aceito precisava antes fazer um curso prático muito difícil, depois de completar os primeiros anos da escola de medicina. Para ter o direito de trabalhar depois como internos do Instituto, os candidatos precisavam ter uma presença perfeita no curso de dois anos. E como internos estavam ainda em regime de experiência, trabalhando sem ganhar para os pesquisadores titulares que os aceitassem, até que surgisse uma oportunidade de integrar o grupo permanente. Os próprios candidatos consideravam esses testes necessários para serem admitidos à instituição que era considerada a única no Brasil onde se praticava a ciência genuína. Além do ambiente estimulante, o Instituto dispunha de uma excelente biblioteca, uma boa infra-estrutura e excelentes técnicos --- inclusive sopradores de vidro, eletricistas e mecânicos, todos treinados pelos próprios pesquisadores mais graduados. Uma vez admitidos, os candidatos podiam esperar que seu trabalho fosse não só reconhecido mais usado nas muitas campanhas promovidas pelas autoridades sanitárias com as quais o Instituto estava ligado."

A famosa verba da manqueira, contabilizada à parte, teve importância vital na sustentação do Instituto Oswaldo Cruz, sobretudo nas conjunturas recessivas do país, com ela foram pagos os salários de muitos pesquisadores e funcionários, parte das despesas com as novas construções, a impressão das Memórias e uma infinidade de outros itens. Devido à importância dessa fonte de recursos, o Instituto empenhou-se a fundo em disseminar o uso da vacina nas zonas pastoris do Brasil. Grande parte dos fornecimentos fazia-se por intermédio do Ministério da Agricultura e outros órgãos públicos estaduais ou municipais. Basta salientar, que, entre outras rendas arrecadadas pelo Instituto, predominava a da manqueira, pela qual foi custeada a maioria das despesas do pessoal contratado e de material até 1930, além da despesa total do Instituto nos anos de 1931 e 1932, na importância média de Cr$ 880 mil anuais, em virtude de ter havido corte orçamentário nos ditos anos. Tendo o governo concedido apenas Cr$ 30 mil para material em 1933 e Cr$ 30 mil para 1934, foi a citada renda um fator preponderante para a manutenção dos encargos do Instituto.

Face à ineficiência da rede de distribuição do Estado, Oswaldo Cruz chegou a organizar, em 1913, uma seção de Propaganda da Vacina contra a peste da Manqueira, a cargo de Eduardo Dale, que naquele ano percorreu todos os municípios do Rio Grande do Sul, desencalhando os estoques acumulados nas inspetorias do Ministério da Agricultura, divulgando a vacina pelos pequenos jornais interioranos, fazendo demonstrações práticas de seu uso e nomeando agentes da vacina do instituto entre os maiores estancieiros da região. Além da vacina contra o carbúnculo sintomático - doença conhecida localmente como mal do ano ou ando ou ainda quarto inchado -, Dale fazia propaganda da vacina contra o carbúnculo verdadeiro ou hemático, que os gaúchos denominavam mancha.

Em 1937 porém surgiu um grande obstáculo para o cumprimento do acordo: é que o Governo reformado o Ministério da Educação pela lei 378 de 13 de janeiro de 1937, ao Instituto foi proibido a partir de 15 deste mês (data da publicação da lei, a aplicação das rendas de soros e vacinas diretamente no custeio dos seus serviços: "a renda de qualquer serviço se incorporará obrigatoriamente ao orçamento da recita, incluindo-se no da despesa as dotações necessárias ao custeio de todas as suas atividades". Posteriormente tendo o art. 68 da Constituição de novembro de 1937 consolidada a mesma proibição e ainda por determinar o inciso 7 da Exposição de Motivos do decreto lei n.82 de 16.12.1937 que a s atividades industriais do Instituto deveriam ficar restritas aos produtos de aplicação na medicina humana, foi consultado o Conselho Federal do Serviço Público Civil, o qual, considerando inconveniente o regime adotado, fez publicar no Diário oficial de 15 de fevereiro de 1938 uma resolução sob o n. 1725. A proibição foi extensiva à fabricação de vacinas para uso veterinário. Em vista dessas dificuldades, o concessionário requereu a rescisão do acordo ao Sr. Diretor do Instituto, em 16 de agosto de 1938 tendo sido o pedido encaminhado ao Ministério da Educação com o ofício n.549 de 18 do mesmo mês. Constituído o processo n.32003 de 1938, do Ministério da Educação, por despacho do Sr. Ministro foi concedida rescisão em 21 de dezembro do mesmo ano, na forma do parecer do Consultor Jurídico do mesmo Ministério.



A centralização administrativa e financeira foi reforçada pela criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) em 1938, que avocou a preparação de todos orçamentos dos órgãos federais. Os detentores de patentes de Invenção de produtos biológicos foram proibidos de auferir percentagens sobre a sua venda ao publico. O Instituto deixou, então, de fabricar as vacinas contra a peste da manqueira e o carbúnculo hemático – suas principais de renda própria que passaram para a órbita da indústria privada. Com a proibição da fabricação de seus produtos pelo Instituto, e como legalmente não podiam constituir firma para fabricar e comercializar-los, Godoy e Machado, fundaram em 25 de janeiro de 1939, em nome das respectivas senhoras Dulce de Castro Godoy e Ruth Lobo Machado (esta era cunhada de Carlos Chagas). A firma que se chamou – Produtos Veterinários Manguinhos Ltda. (memória pessoal).

Em 1939, o Ministério da Agricultura tornou obrigatório o registro dos produtos a serem comercializados. Foram então registradas a vacina Manguinhos contra a peste da manqueira em 13 de setembro de 1938, recebendo o registro nº 1, no livro 1, folha 1 e a Vacina Anticarbunculosa Manguinhos o registro nº 2 no referido livro e folha. Estes registros ainda foram pedidos através do IOC, e o Diretor Dr. ª Fontes comunicou por portaria no 213 de 31 de março de 1939 à Secretaria de Defesa Sanitária Animal, que “ atendendo ao que solicitaram os Drs. ALCIDES GODOY e ASTROGILDO MACHADO, funcionários deste Instituto, que os certificados nos. 1 e 2, dessa Diretoria, referentes aos registros das “Vacina contra a peste da Manqueira” e “Anticarbunculosa Manguinhos”, foram entregues aos mesmos senhores,conforme requereram a esta Diretoria, para efeitos de transferência de fabricação daquelas vacinas, em vista do despacho ministerial autorizando a cessação dos acordos que existiam com o Instituto para preparo e exploração comercial dos mesmos produtos.” (http://www.fiocruz.br/ccs/historia/extra_antraz.htm) Em 26 de junho de 1938, GODOY e MACHADO haviam pedido o registro da marca genérica para produtos veterinários “Manguinhos” . Nas notas do pedido do registro “Os Reqtes têm registrada a marca Vacina Anticarbunculosa Manguinhos (Cl 2)...” A marca foi registrada em 14-3-40 (Processo arquivado no Acervo da Casa de Oswaldo Cruz, Departamento de Arquivo e Documentação. Fundo Centro de Pesquisa René Rachou. 04.05.00/03.01 cx 30 maço 1). Apesar das vacinas saírem do Instituto, Godoy e Machado continuaram a trabalhar para o Instituto até falecerem respectivamente em 30 de janeiro de 1950 e 19 de janeiro de 1945. Para Simon Schwartzman a retirada da fonte de rendimentos com a produção da vacina manqueira apressou o processo de decadência do IOC qu desde então passou a ter de conar com o mecenato para que pesquisadores como Lauros Travassos, Walter Oswaldo Cruz e Evandro Chagas pudessem continuar com susas pesquisas. Para Gisele Samglard tal apoio de mecenas como Guilherme Guinle foi muito mais o fruto de seu tempo e uma adesão a um projeto de Brasil.

De 1906 a 1938 as vacinas tornaram-se nacionalmente conhecidas pelo seu grande poder de imunização, facilidade de manejo e transporte, pelo fato de serem utilizadas em temperatura ambiente, passando a ser requisitadas pelos principais criadores de gado. No mesmo período o Instituto pproduziu quase 49 milhões de vacinas dessa espécie, arrecadando mais de 16 mil contos. Porém, somente em 1939 aconteceu o primeiro lançamento de produtos veterinários oficialmente desenvolvidos no Brasil, no caso, as Vacinas Manguinhos. Há mais de 90 anos as vacinas Manguinhos, em especial, a Vacina contra Peste da Manqueira vem contribuindo eficazmente para o controle de doenças que acometem o rebanho nacional, transmitindo aos pecuaristas, total segurança e confiabilidade com a melhor relação custo/benefício. A empresa continua a comercializar a vacina contra a peste da manqueira, mas não a do carbúnculo verdadeiro.

Outros produtos biológicos de uso veterinário foram obtidos por meio de técnicas originais concebidas em Manguinhos. O próprio Alcides Godoy desenvolveu, junto com Astrogildo Machado, a vacina contra o carbúnculo verdadeiro, produto novo em relação à clássica vacina de Pasteur, e a vacina contra a diarréia dos bezerros ou pneumoenterite. A Henrique Aragão é creditada a vacina contra a espirilose das galinhas. Astrogildo Machado, sozinho, criou o Protosan, empregado contra o mal das cadeiras, uma doença de cavalos. Dentre os produtos terapêuticos destinados à medicina humana, destaca-se o tártaro emético, desenvolvido pelo patologista Gaspar Viana que ingressou no instituto em 1909, para assumir as pesquisas em anatomia patológica, até então exercidas por Rocha Lima. Empregado no tratamento da leishmaniose, o produto foi amplamente utilizado no Brasil e em vários países da África e da Ásia.

A Vacina contra a manqueira foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Formicida Matarazzo. Tendo sido incluída na lei de Despesa de 1923 uma autorização para prorrogar por 15 anos o prazo da patente de invenção, o Sr. Diretor do Instituto dirigiu ao Sr. Ministro da Justiça o ofício 478, de 9 de agosto do mesmo ano solicitando providências no sentido de ser posta em execução a mencionada prorrogação. Em consequência o governo fez publicar o Decreto n. 16.200 de 31 de outubro de 1923 que prorroga por 15 anos o prazo do privilegio de que trata a Carta de Patente de invenção, n. 5.566 de 24 de novembro 1908, que em seu artigo primeiro estabelece: "Fica prorrogado por 15 anos o prazo do privilégio a que se refere a Carta Patente n. 5.566, de 24 de novembro de 1908, concedida ao Dr. Alcides Godoy e transferida ao Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos (Instituto Oswaldo Cruz) , em 24 de março de 1909, para invenção de uma nova vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da manqueira)". Os rendimentos obtidos com a venda da vacina foram fonte de verbas controladas pelo Instituto para contratar pessoal, comprar material, formar a biblioteca etc.

A experiência da vacina da peste manqueira foi pontuada por conflitos políticos e gerenciais. Nara Britto, a partir de depoimento oral de Lobato Paraense, esclarece que as discussões em torno desta vacina originaram divergências, gerando três posições sobre a aplicação dos lucros auferidos com a comercialização do produto. Oswaldo Cruz decidiu destinar os royalties da vacina aos inventores. Uma vertente apoiou a medida tomada por Oswaldo Cruz. Outro grupo pensava em aplicar as verbas em compra de materiais laboratoriais. Um terceiro grupo defendeu a distribuição equitativa dos lucros entre os pesquisadores, como forma de acréscimo salarial. Questionou-se também a “legitimidade de propriedade de um produto desenvolvido numa instituição pública”. Em relatório do Instituto Oswaldo Cruz, de 14 de fevereiro de 1912, Oswaldo Cruz tece comentários generosos em relação à atitude de desprendimento de Godoy, posto que este havia cedido a titularidade da vacina ao Instituto. Godoy condicionou a cessão à aplicação das verbas em atividades de aquisição de livros e de publicação da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, conforme Relatório do Instituto Oswaldo Cruz, de 1911 (Britto, 1995). A patente da vacina foi registrada em 24 de novembro de 1908 (carta-patente no 5.566, publicada no Diário Oficial, de 6 de dezembro de 1908), e lavrada pelo tabelião Evaristo Vale de Barros, em 11 de dezembro de 1908. O termo de cessão foi registrado em 24 de março de 1909, no livro 5, fl.132, do registro geral de privilégios, da Diretoria Geral de Indústria (Ministério da Viação e Obras Públicas). O não cumprimento das condições supracitadas invalidaria a cessão. Entendimento verbal entre Oswaldo Cruz e Alcides Godoy possibilitou o remanejamento, em favor do inventor, de 5% da renda bruta da vacina até 1917, e daí em diante, 8% (Benchimol, 1990).

As verbas da manqueira foram vitais para o Instituto, uma vez que não eram objeto da burocracia do Ministério da Justiça e não necessitavam ser submetidas aos critérios de aplicação de recursos votados pelo Congresso. Um novo tipo de parceria público-privada emergia, então, do efervescente ambiente de Manguinhos. Os royalties permitiram também o pagamento de salários de pesquisadores e funcionários e o custeio de parte das construções (Benchimol, 1990). Verdadeiras ações de marketing foram delineadas. Visando incrementar a arrecadação das vendas da vacina, esforços foram direcionados para difundir a nova tecnologia nas zonas pastoris brasileiras. À época, o Ministério da Agricultura e outros órgãos públicos estaduais ou municipais eram os responsáveis pelo fornecimento deste tipo de produto. Para superar as deficiências do sistema de distribuição, Oswaldo Cruz organizou, em 1913, uma seção de “Propaganda da Vacina contra a peste da manqueira”, sob a responsabilidade de Eduardo Dale (Benchimol, 1990). Em 1939, Alcides Godoy e Astrogildo Machado desligaram-se do Instituto e fundaram a empresa Produtos Veterinários Manguinhos Ltda. A vacina até hoje é comercializada. Como vimos, nada mais atual que a discussão sobre a proteção e a exploração comercial da vacina contra a peste da manqueira.

Outra frente importante de trabalho de Godoy em Manguinhos foi a criação de diversos dispositivos e aparelhos para facilitar e aperfeiçoar os procedimentos de produção, como o “frasco Dr. Godoy”, desenvolvido por ele para facilitar a coleta de mosquitos pelos “mata-mosquitos” que atuavam nas campanhas sanitárias. Numa época em que as atividades de produção, ensino e pesquisa eram realizadas de modo bastante conjugado pelos pesquisadores, Godoy foi também professor do curso de aplicação do Instituto, criado em 1908 para oferecer treinamento experimental nas áreas de microbiologia e zoologia médica. Godoy fez três viagens de estudo à Europa. Em 1912, foi enviado aos Laboratórios de Leipzig, na Alemanha, a fim de acompanhar pesquisas concernentes a questões de físico-química aplicada à ciência médica. Em 1919, permaneceu quatro meses na Europa; foi designado para esta viagem a partir da solicitação, feita a Manguinhos pela representação diplomática inglesa, para que algum médico embarcasse num navio inglês aportado no Rio cujo médico de bordo havia adoecido. Esta foi, conforme relatou certa ocasião, a única vez que exerceu a clínica médica. Finalmente, em 1925, esteve na Itália acompanhando Carlos Chagas no 1º Congresso de Malariologia, realizado em Roma, e para estudar os modernos processos de profilaxia da malária empregados naquele país.

Integrante do chamado “jardim da infância da ciência”, como Oswaldo Cruz carinhosamente chamava o grupo inicial de pesquisadores de Manguinhos, Godoy sempre gozou da confiança e apreço tanto de Cruz quanto de seu sucessor, Carlos Chagas, substituindo-os, várias vezes, em suas ausências, na direção do instituto. Em 1923, Carlos Chagas solicitou ao Ministério da Justiça a renovação da patente da vacina da manqueira por mais 15 anos. Foi o segundo produto que obteve no Brasil a renovação da Patente, fato só obtido anteriormente pela Formicida Matarazzo. Em 1937, como consequência da reforma implementada por Gustavo Capanema no Ministério da Educação e Saúde (criado em 1930, no âmbito da Revolução de 1930), foi vedada ao IOC a fabricação e comercialização desse e outros produtos veterinários.

Em 26 de junho de 1938, Godoy e Machado pediram o registro da marca genérica para produtos veterinários Manguinhos. Suas famílias fundaram em 25 de janeiro de 1939, uma firma que se chamou Produtos Veterinários Manguinhos Ltda, para fabricar e comercializar a vacina da manqueira, do carbúnculo hemático, e posteriormente a vacina contra a pneumoenterite dos porcos. O primeiro lugar em que estabeleceram o laboratório foi em prédio nos fundos do Hospital Gaffrée Guinle, na Rua Silva Ramos 20. Tiveram por muitos anos escritório na Rua Uruguaiana 33. Na década de 40 construíram um laboratório na Rua Licinio Cardoso 91 (hoje Rua Francisco Manuel), em Benfica. Godoy casou-se com Dulce Leite de Castro em 5 setembro de 1923 e tiveram dois filhos: Oswaldo Tarcisio, que veio a se formar em Química Industrial e Engenharia Química e Margarida Maria, que estudou musica, tocava piano e estudou na Europa. Faleceu em 30 de janeiro de 1950, aos 70 anos. Na década de 60 a família Godoy saiu da sociedade, que ficou com a família de Machado. A firma, que continua a fabricar a vacina da manqueira, foi vendida recentemente pelos seus descendentes e pertence hoje à empresa Bravet.


Resumo: n.5267 (carta patente 5566) O presente pedido de privilégio refere-se a uma nova vacina contra o carbúnculo sintomático — também conhecido como peste da manqueira, mal de ano ou quarto inchado — chamado de Rauschbrand na Alemanha, charbon symptomatique na França e blackleg na América do Norte, entre outras denominações que indicam a mesma doença. Nenhuma das diferentes vacinas usadas contra o carbúnculo sintomático se baseia na propriedade que a glicose possui de impedir, em certo grau, a capacidade de esporulação dos microrganismos que produzem esporos. Essa ação pode, em determinadas circunstâncias, provocar tal alteração no desenvolvimento dos micróbios que permite o uso das culturas, como vacina, sem qualquer tratamento posterior. O material assim obtido pode ser inoculado em animais em doses muito altas sem causar qualquer reação mórbida. Essa propriedade, embora não seja suficiente, por si só, para fabricar a vacina, é obrigatória e constitui a característica mais notável da presente invenção. Para o preparo da vacina, é também necessário que a amostra utilizada seja de fraca virulência, diferindo, nesse ponto, das demais vacinas, que utilizam culturas altamente virulentas. As demais vacinas são constituídas ou por emulsão de germes totalmente vivos ou por culturas mortas. A nossa se distingue delas por conter, ao lado de uma grande quantidade de germes mortos, um pequeno número de germes ainda plenamente vivos. O preparo da vacina na forma líquida não exclui a possibilidade de usar emulsões concentradas ou a adição de substâncias conservantes, de modo a permitir o envio em pequenos volumes ou o uso do mesmo frasco em dias diferentes. Também se pode empregar o resíduo seco da cultura, em forma de pó ou emulsão em líquido. Outra característica da nossa vacina, quando fornecida em estado líquido, é a presença de soro sanguíneo. Os exames microscópico, cultural e biológico servem para melhor caracterizá-la. Passamos, então, a descrever como ocorre o desenvolvimento do carbúnculo sintomático: no caldo glicossado com soro, que é o meio utilizado para produzir a nossa vacina; no caldo simples com soro, onde o carbúnculo sintomático se comporta de maneira muito diferente. No início da cultura em caldo glicossado com soro, as formas microbianas são mais ou menos uniformes: bastonetes finos e regulares, clostrídios ou filamentos. A cultura atinge seu máximo desenvolvimento em dois ou três dias e então cessa. Após o fim do crescimento, observa-se que praticamente não houve formação de esporos, exceto em raríssimos bastonetes; outros apresentam vacúolos ou se tornam granulosos; outros ainda formam longos filamentos, havendo verdadeira desintegração microbiana. Pelo exame de preparações coradas, nota-se que poucas formas microbianas absorvem as colorações usuais, sendo necessária a utilização de soluções concentradas ou mordentes para obter cor adequada. Na cultura em caldo simples com soro, a maioria dos germes é formada por bastonetes que, após alguns dias, produzem esporos. Os microrganismos se coram normalmente com os corantes usuais até o fim da cultura. Essas culturas são virulentas, ao contrário das primeiras, que são avirulentas. Reivindico, como pontos e características essenciais da invenção: O uso, como vacina, de culturas avirulentas de carbúnculo sintomático. O uso do depósito das culturas, com ou sem adição de substância conservante, formando uma vacina concentrada. A possibilidade de dessecagem, obtendo uma vacina sólida. A ação desnaturante da glicose sobre a cultura do carbúnculo sintomático, transformando-a em vacina. O uso do soro sanguíneo no preparo da vacina líquida.

Referências:


http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2096&sid=5
http://www4.prossiga.br/chagas/sobrech/sec/eh-584.PDF
http://www.fiocruz.br/ccs/historia/extra_antraz.htm
acesso em dezembro de 2001
Benchimol e Teixeira, "Cobras, Lagartos & Outros Bichos"
Aragão, H.B de - "Noticia Histórica Sobre a Fundação do Instituto Oswaldo Cruz" – separata das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz tomo 48 1950 p.40
Jaime Benchimol, "Origens e evolução do Instituto Oswaldo Cruz” http://www4.prossiga.br/chagas/sobrech/sec/eh-584-PDF
Chamas, Claudia. A propriedade intelectual e a vacina contra a peste da manqueira, 2006
http://www4.prossiga.br/chagas/traj/links/textos/eguerreiro.html
acesso em outubro de 2004
http://www.schwartzman.org.br/simon/spacept/pdf/capt4.pdf
acesso em agosto de 2007
http://www.finep.gov.br/revista_brasileira_inovacao/nona_edicao/memoria.pdf
acesso em agosto de 2008
Taveira, A. A. Resumo histórico da vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da Manqueira), 26/10/1944. Fundo Instituto Oswaldo Cruz, seção Serviço de Administração, série Administração Geral, caixa 13, maço 2. O documento está arquivado na Casa de Oswaldo Cruz.
Aragão, Henrique de B. Notícia histórica sobre a fundação do Instituto Oswaldo Cruz. Separata das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, vol. 48, março de 1950, (citadas as páginas 14, 25, 26. Nas Memórias é o 1º artigo, o de abertura).
Magalhães, Octavio de. Alcides Godoy. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 49, março de 1951, páginas 1 a 4.
Microfilme do 3º Ofício de Títulos e Documentos do Rio e Janeiro - cartório do tabelião Evaristo do Valle de Barros. Escritura de cessão de direitos lavrada no dia 11 de dezembro de 1908, no livro 805, fl 21v e 22 - Arquivo Nacional.
Agradeço a Oswaldo Tarcisio Godoy, filho do inventor Alcides Godoy, pelo envio de informações em setembro de 2004 para composição desta página

#246 n.8013 MÁQUINA FALANTE QUE CONSISTE EM UMA FORMA APERFEIÇOADA DE DISCO RECEPTOR DO SOM

 n.8013 MÁQUINA FALANTE QUE CONSISTE EM UMA FORMA APERFEIÇOADA DE DISCO RECEPTOR DO SOM 

Depósito: 09/10/1901

Destaque:  pioneiro de aparelhos sonoros e gravações

Inventor:  Fred Figner

Titular: Fred Figner




Fred Figner, nascido em 1866 em Milevsko, na Boêmia, foi um empresário judeu que se tornou um dos maiores pioneiros da indústria fonográfica no Brasil. De origem humilde, deixou sua terra natal aos 13 anos para aprender comércio e, aos 15, emigrou sozinho para os Estados Unidos. Chegou ao país num momento de grande inovação tecnológica, quando Thomas Edison lançava o fonógrafo. Encantado com o aparelho, Figner adquiriu um exemplar, cilindros de cera e materiais de gravação. Em 1891 embarcou para o Brasil, desembarcando em Belém sem falar português. Começou então a exibir o fonógrafo ao público, cobrando para que as pessoas ouvissem suas próprias vozes — um enorme sucesso. Viajou por várias capitais do Norte e Nordeste até chegar ao Rio de Janeiro em 1892, já com recursos e aprendendo o idioma. Em 1900 abriu, na Rua Uruguaiana, a Casa Edison, primeira loja do país dedicada à venda de aparelhos sonoros e gravações. Ao perceber o potencial dos discos criados por Emile Berliner, mudou-se para a Rua do Ouvidor, onde montou o primeiro estúdio brasileiro de gravação e comercialização de discos. Além de sua atuação empresarial, Figner foi figura destacada no movimento espírita, contribuindo com ações caritativas, apoio financeiro e produção de textos durante mais de três décadas. Reconhecido por seu impacto cultural e social, o jornal A Noite Ilustrada o homenageou após sua morte, chamando-o de “o mais brasileiro de todos os estrangeiros”. Fred Figner faleceu no Rio de Janeiro em 1947.

Os discos fabricados por Figner nessa fase inicial utilizavam cera de carnaúba, eram gravados em apenas uma das faces e tocados em vitrolas movidas a manivela. Apesar das limitações técnicas, essa iniciativa representou uma verdadeira revolução para a música popular brasileira, que engatinhava, pois até então os artistas só podiam se apresentar ao vivo ou comercializar suas criações por intermédio de partituras impressas. O primeiro disco brasileiro foi gravado na Casa Edison pelo cantor Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, em 1902. Era o lundu “Isto é Bom”, de autoria do seu conterrâneo Xisto da Bahia. A partir daí, mais e mais artistas começaram a gravar suas composições em discos que eram distribuídos pela Casa Edison do Rio e também pela filial que Figner havia aberto em São Paulo. O flautista Patápio Silva, o maestro Anacleto de Medeiros e o cantor Cadete foram outros pioneiros das gravações.[1] A procura pelos discos cresceu tanto que, em 1913, Fred decidiu instalar uma indústria fonográfica de grande porte na Boulevarde 28 de Setembro, Vila Isabel, dando origem ao consagrado selo Odeon, hoje sob responsabilidade da Universal Music.

O primeiro catálogo publicado por Figner já em nome da Casa Edison, em 1902 (época em que a produção de cilindros de fonógrafo recém-adquirira  escala  comercial),  contém  a  relação  dos  primeiros  cilindros  e  discos  gravados  no  Brasil.  Trazia  mais  de  duas  centenas  de  gravações,  incluindo  cançonetas,  valsas,  maxixes,  marchas,  tangos,  lundus  e  modinhas.  No  início  do  século XX, a música popular brasileira era raramente registrada em partituras, de modo que um importante repertório de modinhas e lundus – duas das mais antigas expressões  musicais  nacionais  –  se  teria  perdido  se  não  fossem  as  gravações  da  Casa Edison.



Resumo: 8013 Máquina falante que consiste em uma forma aperfeiçoada de disco receptor do som e método defazê-lo.

Referências:

INPI, Invenções no Brasil imperial e republicano, Rio de Janeiro: INPI, 2025, p.257-265



domingo, 16 de novembro de 2025

#245 N.479 AERÓSTATO DIRIGÍVEL

N.479 AERÓSTATO DIRIGÍVEL

Depósito: 24/07/1890

Destaque:  pioneiro da aerostatação

Inventor:  Gastão Galhardo Madeira

Titular: Gastão Galhardo Madeira



Gastão Galhardo Madeira (1869-1942) nasceu em Ubatuba e faleceu na cidade de São Paulo, desde menino aos 13 anos, ele já elaborava o projeto de um moto-contínuo, uma máquina que teoricamente funcionaria eternamente sem fonte de energia, embora essa ideia não tenha saído do plano teórico. Em 1887, mudou-se para São Paulo para cursar Direito. Paralelamente aos estudos jurídicos, dedicou-se com grande empenho a investigar os princípios do voo, minuciosamente observando o comportamento das aves. Suas pesquisas abrangiam tanto os balões (aerostação) quanto as aeronaves mais pesadas que o ar (aviação). Fruto desse trabalho, em 1890 ele obteve no Rio de Janeiro a patente para um novo modelo de balão dirigível.

Dois anos depois, publicou um "Estudo sobre a direção dos aeróstatos" em um jornal da capital paulista. Após formar-se bacharel em Direito nesse mesmo ano, passou a exercer a profissão de advogado. Seu interesse pela aviação, adormecido por algum tempo, reacendeu com força em 1911. Nesse ano, ele realizou uma demonstração pública bem-sucedida de um planador em miniatura para o então presidente da República, Hermes da Fonseca, no Palácio do Catete. Em 1912, projetou um novo tipo de aeronave, batizada de "Brasil-S. Paulo". Buscando apoio para seu projeto, enviou um pedido de financiamento ao Senado paulista no ano seguinte, que foi respaldado por pareceres técnicos favoráveis de engenheiros da Escola Politécnica. Após debates, o governo estadual aprovou um crédito de 36 contos de réis para que ele realizasse testes definitivos na Europa.

Com o auxílio concedido, Gastão mudou-se com a família para a França em 1914. Lá, registrou com sucesso quatro patentes no escritório francês de propriedade industrial, entre 1914 e 1919. Seus inventos protegiam ideias diversas, incluindo um simulador de voo, um estabilizador automático para aeronaves, um sistema para anúncios luminosos e um mecanismo de controle do leme de profundidade. O estouro da Primeira Guerra Mundial impediu a produção industrial de suas criações, levando-o a retornar ao Brasil em 1917. Anos mais tarde, em 1939, foi reconhecido como sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.




Resumo: 479 Novo aeróstato dirigível

Referências:
Sobre o Mar de Iperoig – A aviação em Ubatuba (2017), de Celso de Almeida Jr.; Celso Teixeira Leite e César Rodrigues. Instituto Salerno-Chieus.

Voando Além do Tempo – O pensar de Gastão Madeira (2019), de César Rodrigues. Instituto Salerno-Chieus.

“De Ubatuba para o mundo, Gastão Galhardo Madeira”, de Rodrigo Moura Visoni. In: Revista Aero-Magazine nº 291/2018

INPI, Invenções no Brasil imperial e republicano, Rio de Janeiro: INPI, 2025, p. 266-269

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

#244 UNICAMP PI0905833 MÉTODO DE PREPARAÇÃO DE AMOSTRA COPROPARASITOLÓGICA FECAL E COMPOSIÇÃO CLARIFICANTE

PI0905833 MÉTODO DE PREPARAÇÃO DE AMOSTRA COPROPARASITOLÓGICA FECAL E COMPOSIÇÃO CLARIFICANTE

Depósito: 15/10/2009

Destaque:  licenciamento para  IMMUNOCAMP CIÊNCIA E TECNOLOGIA S.A

Inventor:  Celso Tetsuo Nagase Suzuki / ALEXANDRE XAVIER FALCÃO / Jancarlo Ferreira Gomes / Sumie Hoshino Shimizu

Titular: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS - UNICAMP (BR/SP)


A patente PI 0905833-8, de titularidade da UNICAMP, refere-se a um “Método de preparação de amostra coproparasitológica fecal e composição clarificante”. A invenção propõe um procedimento para análise de fezes com o objetivo de detectar parasitas intestinais, melhorando a visibilidade e a precisão diagnóstica. O método é baseado em duas etapas principais: enriquecimento parasitário e clarificação da amostra. Na primeira etapa, há a separação seletiva de estruturas leves (como cistos, oocistos e ovos de baixa densidade) e estruturas pesadas (ovos de alta densidade e larvas maiores), utilizando dois tubos distintos ou um único tubo de processamento. A separação ocorre por flutuação e sedimentação espontânea, eliminando impurezas fecais. Na segunda etapa, é aplicada uma composição clarificante composta por solução de hipoclorito de sódio (2–2,5% de cloro ativo) e sais como hidróxido, cloreto ou bicarbonato de sódio. Essa solução dissolve detritos e melhora a transparência da amostra, facilitando a observação microscópica. O processo de clarificação dura cerca de cinco minutos. Após isso, adiciona-se uma solução preservadora (formolina neutra ou solução salina fisiológica 0,85%), seguida de acetato de etila P.A. para estabilização, com homogeneização de cerca de 30 segundos e repouso de 15 minutos.
O método resulta em amostras mais limpas, com detecção eficiente de protozoários e helmintos, reduzindo tempo e custo em comparação aos métodos tradicionais. Trata-se, portanto, de uma inovação voltada à melhoria do diagnóstico coproparasitológico clínico e veterinário, com maior padronização, rapidez e segurança para laboratórios.

O procedimento avança na automatização da rotina de laboratórios de análises clínicas, públicos e privados, para o exame de parasitos intestinais de humanos, por análise computadorizada de imagens. As melhorias proporcionadas ao Diagnóstico Automatizado de Parasitos Intestinais (DAPI III) permitiram a purificação das amostras fecais de forma mais eficiente, com alta concentração de estruturas parasitárias e reduzida quantidade de detritos. A amostra é submetida a análise por meio de um microscópio motorizado personalizado com câmera digital de alta resolução, controlado por software desenvolvido pela equipe. O sistema DAPI III é um inédito aparelho integrado de leitura e diagnóstico no mundo capaz de entregar resultados por imagens de parasitos intestinais.


Alexandre Xavier Falcão possui Graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1988), Mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (1993) e Doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (1997). Desde 1998 é Professor do Instituto de Computação, Universidade Estadual de Campinas, promovido por concurso de Livre Docência à Professor Associado em 2003 e à Professor Titular em 2011.


Resumo: PI0905833 A presente invenção trata-se de um método técnico-laboratorial de enriquecimento parasitário e redução de impurezas fecais simultâneos em amostra para diagnóstico de enteroparasitoses humanas e animais. O método ora proposto compreende combinação de procedimentos técnicos laboratoriais apropriados e uso de soluções reagentes, sendo o referido método compatível com técnicas coproparasitológicas convencionais e/ou kits diagnósticos disponíveis no comércio. O invento confere melhoria da sensibilidade diagnóstica devido a dois fatores: a) um enriquecimento seletivo parasitário considerável e, b) uma redução drástica e concomitante de impurezas fecais. Mesmo quando as estruturas de diversas espécies parasitárias estão presentes em pequeno número nas amostras fecais, o invento proposto confere capacidade de apresentar estas estruturas na lâmina, conferindo ao diagnóstico melhor desempenho e sensibilidade.

Referências:

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

#243 UNICAMP 102013006865 ESTIMULADOR DE NERVOS PERIFÉRICOS AUTOMATIZADO E MÉTODO DE AUTOMATIZAÇÃO

102013006865 ESTIMULADOR DE NERVOS PERIFÉRICOS AUTOMATIZADO E MÉTODO DE AUTOMATIZAÇÃO

Depósito: 25/03/2013

Destaque:  licenciamento para SDAMED LTDA

Inventor:  ANTONIO AUGUSTO FASOLO QUEVEDO / CARLOS ALEXANDRE FERRI

Titular: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS - UNICAMP (BR/SP)

A invenção corresponde a um estimulador de nervo periférico automatizado para administração de anestesia regional em pacientes, oferecendo mais praticidade e segurança ao médico anestesiologista, bem como a proposição de um método para identificação da contração muscular. Um dos processos de aplicação de anestesia regional em cirurgias consiste no bloqueio de nervos periféricos para controle prolongado da dor. O estimulador de nervo periférico é o equipamento que estima a distância entre a ponta da agulha e o nervo a ser bloqueado. O grande diferencial desta invenção é sua automatização, uma vez que dispensa a necessidade do controle manual da corrente da solução anestésica, reduz o risco de lesões corporais e efeitos colaterais. Assim, esta tecnologia assegura um bloqueio de qualidade e com mais eficiência. O licenciamento foi realizado para a SDAMed, empresa-filha da Unicamp e graduada na Incamp.

A invenção “Estimulador de Nervos Periféricos Automatizado e Método de Automatização” (102013006865), desenvolvida pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), consiste em um sistema eletrônico destinado a auxiliar anestesistas em bloqueios de plexos nervosos durante procedimentos de anestesia regional. Seu diferencial está na automatização do controle de corrente elétrica aplicada ao nervo periférico do paciente, mantendo-a constante e independente da impedância tecidual, o que aumenta a precisão e a segurança do procedimento. O dispositivo integra diversos componentes: um condicionador de sinal EMG para captar a resposta elétrica muscular evocada pela estimulação; um acelerômetro conectado ao paciente para medir o movimento gerado pela contração muscular; e um microcontrolador responsável por analisar os sinais recebidos e decidir automaticamente o ajuste do nível de corrente. O sistema inclui ainda um firmware que coordena a coleta e o processamento dos dados do acelerômetro, eliminando ruídos, calculando a resultante vetorial dos três eixos e identificando contrações musculares válidas. O software repete ciclos de amostragem e, ao detectar resposta adequada, reduz progressivamente a corrente, otimizando o tempo de aplicação e dispensando a necessidade de um assistente. A invenção melhora a usabilidade, a praticidade e a precisão do bloqueio anestésico, permitindo ao médico executar o procedimento sozinho, com o mesmo nível de qualidade e segurança de uma operação assistida. Trata-se, portanto, de uma solução inovadora e automatizada para o campo da anestesiologia regional, unindo instrumentação biomédica e inteligência embarcada.



Antônio Augusto Fasolo Quevedo possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (1991), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (1993) e doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (1996). Atualmente é professor assistente doutor da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Engenharia Biomédica, com ênfase em Engenharia de Reabilitação, atuando principalmente nos seguintes temas: engenharia de reabilitacao, controle motor, reabilitacao motora, biomecanica e instrrumentação biomédica. Na graduação, leciona disciplinas de eletrônica analógica, sistemas digitais, programação de sistemas embarcados e projeto de hardware embarcado.

Resumo: 102013006865 O presente pedido de patente de invenção refere-se a um estimulador de nervos cujo controle dos níveis de corrente é automatizado. O estimulador de nervos periféricos proposto possui principal aplicação no auxílio à anestesia regional, também conhecido como bloqueio de plexo. A invenção proposta melhora a praticidade do uso de estimulador em auxílio a procedimentos anestésicos regionais, por ampliar a usabilidade do estimulador, automatizando o ajuste do nível de corrente. Esta automatização é o que torna mais prático o uso do estimulador de nervos periféricos pelo médico anestesiologista, pois permite realizar um bloqueio de nervos periféricos utilizando-se do estimulador sem o auxílio de um assistente, mantendo a mesma qualidade e precisão do que com a presença deste.

Referências:

domingo, 9 de novembro de 2025

#242 UNICAMP 102012032322 PROCESSO PARA OBTENÇÃO DE PLACAS DE MICROCANAIS PARA MICROREATORES QUÍMICOS A PLACAS ASSIM OBTIDAS

102012032322 PROCESSO PARA OBTENÇÃO DE PLACAS DE MICROCANAIS PARA MICROREATORES QUÍMICOS A PLACAS ASSIM OBTIDAS

Depósito: 18/12/2012

Destaque:  licenciamento para Vesta Microtechnologies Ltda.

Inventor:  RUBENS MACIEL FILHO / ANDRÉ LUIZ JARDINI MUNHOZ / AULUS ROBERTO ROMÃO BINELI

Titular:  UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS - UNICAMP (BR/SP)

A invenção de um processo de obtenção de placas de microcanais para geração de hidrogênio foi licenciada para uma spin-off da Unicamp – uma empresa criada pelos próprios inventores para explorar a tecnologia desenvolvida na Universidade. A intenção da empresa é viabilizar a produção de reatores miniaturizados,  dentro do conceito de processos intensificados, dispositivos estes em que as reações químicas ocorrem em um espaço confinado e controlado, para produção de hidrogênio em pequenas estações, com aplicações na indústria química e automobilística.

Um exemplo de aplicação é a produção embarcada de hidrogênio em carros a partir da reforma a vapor do etanol, combustível que possui infraestrutura de distribuição já instalada no país, e permitiria um processo de eletrificação da frota mais factível. A tecnologia também permite a confecção das placas, em arquitetura diferenciada, por impressão 3D, o que processos convencionais de fabricação dificilmente conseguiriam reproduzir. O invento recebeu o título de Patente Verde pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) por se tratar de uma nova tecnologia voltada para a produção de energias alternativas.

A patente BR 10 2012 032322 2 B1, de titularidade da UNICAMP, descreve um processo inovador para obtenção de placas de microcanais destinadas a microreatores químicos, com o objetivo de produzir hidrogênio a partir da reforma a vapor do etanol. O método utiliza a tecnologia de Sinterização Direta em Metal a Laser (DMLS), uma técnica de manufatura aditiva que permite construir estruturas metálicas complexas em camadas sucessivas. Essa abordagem possibilita a fabricação de monoblocos metálicos compactos, integrando internamente microcanais de alta precisão sem a necessidade de soldagens ou junções, o que melhora significativamente a resistência mecânica, a estanqueidade e a eficiência térmica do reator. As placas resultantes apresentam micrométricas passagens internas, ideais para reações químicas contínuas em microescala, com melhor controle de temperatura e velocidade de reação. O processo permite também variar o desenho e a geometria dos canais para otimizar o desempenho catalítico e o fluxo dos reagentes. A invenção é voltada principalmente para o setor de energia limpa e sustentável, pois o microreator pode operar de forma portátil e eficiente, convertendo etanol — um combustível renovável — em hidrogênio, combustível limpo usado em células a combustível. Assim, o invento une tecnologia de manufatura avançada e engenharia química para criar uma solução inovadora e nacional para produção descentralizada de hidrogênio, com aplicações potenciais em transporte, geração elétrica e processos industriais de pequena escala.



Rubens Maciel Filho é membro da ACADEMIA DE CIÊNCIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO desde outubro de 2015. Possui graduação em Engenharia Química pela Universidade Federal de São Carlos (1981), mestrado em Engenharia Química pela Universidade Estadual de Campinas (1985) e doutorado em Engenharia Química - The University of Leeds (1989), England, UK. Atualmente é professor titular da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Engenharia Química, com ênfase em Desenvolvimento de Processos Químicos, Bioquímicos e Eletroquímicos, atuando principalmente nos temas de modelagem, otimização, simulação e controle de processos e desenvolvimento de processos e produtos.

Resumo: 102012032322 Refere-se o presente pedido de invenção a um processo de obtenção de placas de microcanais e de um monobloco de microcanais para construção de microreatores químicos por intermédio da Sinterização Direta em Metal a Laser (DMLS) para a produção de hidrogênio a partir da reforma a vapor de etanol.

Referências: